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Renda maior, emprego forte e dívida crescente: por que o consumo segue forte mesmo com juros altos?

A economia brasileira vive um fenômeno que desafia as previsões econômicas. A taxa básica de juros começou a cair depois de atingir o maior patamar em 20 anos, enquanto a população enfrentava níveis recordes de endividamento e inadimplência.

Economistas esperavam um freio da atividade econômica já no primeiro trimestre de 2026. O Produto Interno Bruto (PIB) mostrou, contudo, um avanço do consumo das famílias no período: alta de 1% em relação ao trimestre anterior e de 1,7% contra o mesmo período do ano passado.

Segundo especialistas, o mercado de trabalho aquecido e o aumento da renda das famílias — tanto pelo emprego quanto por políticas públicas de transferência de renda — ajudam a explicar esse cenário.

A taxa de desemprego no trimestre encerrado em abril foi de 5,8%, menor patamar para o período na série histórica do Instituto Brasileirao de Geografia e Estatística (IBGE). No mesmo período, o rendimento real habitual dos trabalhadores foi de R$ 3.732, valor 5,3% maior do que um ano antes.

“As pessoas precisam permanecer inseridas no mercado de trabalho para dar conta do consumo. Isso faz com que o mercado reaja aos efeitos adversos, como a taxa de juros, com certa sustentabilidade”, afirmou Adriana Beringuy, coordenadora de pesquisas domiciliares do IBGE.

Junto ao mercado de trabalho forte, o aumento real do salário mínimo, a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e o alívio de dívidas promovido pelo Desenrola 2.0 foram algumas políticas públicas que mantiveram o ganho de renda da população.

“Tivemos, ao longo dos anos, uma série de transferências de renda. Esse dinheiro vai direto para o consumo imediato, como alimentação, vestuário e serviços”, afirma André Sacconato, assessor econômico da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP).

Segundo especialistas, esse perfil de consumo também reflete a crescente digitalização da economia. Parte do avanço do setor de serviços está ligada a áreas como tecnologia, internet e telefonia.

De acordo com Juliana Trece, coordenadora do núcleo de contas nacionais do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getulio Vargas (FGV), outros segmentos que impulsionam o consumo são bares, restaurantes e viagens.

 levantamento do BC também mostra aumento importante da inadimplência em quase todas as modalidades de crédito para pessoas físicas. Nas linhas com recursos livres — aquelas em que taxas e condições são definidas pelos bancos — o calote chegou a 7,2%.

A classe média não consegue consumir hoje como consumia anos atrás. O modelo econômico atual, baseado em transferências de renda, não é sustentável porque, no fim, aumenta o endividamento, a inadimplência e a necessidade de manter juros elevados por mais tempo”, diz Sacconato.

Consumo deve seguir em alta?

Mesmo com a perspectiva de juros e inflação elevados nos próximos meses, especialistas avaliam que o consumo das famílias deve continuar crescendo neste ano.

Segundo Juliana Trece, a projeção do FGV Ibre é que o consumo das famílias encerre o ano com alta de 2,2%, acima do crescimento de 1,3% registrado no ano passado.

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