Os “Rauls”, termo que se popularizou para designar os estelionatários digitais, transcenderam o universo do crime para se tornarem um fenômeno cultural no Brasil. De codinome misterioso a protagonistas de sucessos do funk paulistano e, em breve, de uma série da Netflix, a trajetória desses golpistas reflete as complexas dinâmicas sociais e tecnológicas do país. O g1, em reportagem aprofundada, investigou a origem do termo e o impacto desses criminosos na música e no imaginário popular.
A ascensão dos golpes digitais, impulsionada por fatores como o advento do PIX e a pandemia de COVID-19, criou um novo perfil de criminoso: o jovem, muitas vezes com conhecimento tecnológico, que opera no anonimato da internet. Esse cenário, longe das tradicionais cenas de crime, encontrou no funk um palco para sua narrativa, documentando não apenas os golpes, mas o estilo de vida e a cultura que os cercam.
A origem do termo “Rauls” e a tipificação do crime
Ainda que a popularização do termo “Raul” para se referir a estelionatários digitais seja um fato, sua origem exata permanece envolta em especulações. Uma das teorias mais difundidas, segundo produtores musicais, MCs e pesquisadores de segurança pública ouvidos pela reportagem, associa o apelido aos antigos aparelhos de clonagem de cartões, conhecidos como “chupa-cabra” ou, em algumas regiões, “Raul”. Para se diferenciar do dispositivo, os golpistas teriam adotado o nome, que é comum a milhares de brasileiros.
É crucial ressaltar que o estelionato é um crime grave, tipificado no Código Penal Brasileiro. O artigo 171 descreve a conduta como “Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento”. A pena prevista varia de um a cinco anos de reclusão, além de multa, evidenciando a seriedade das ações praticadas por esses indivíduos.
O funk paulistano como crônica da vida dos estelionatários
Desde os anos 2010, o funk paulistano tem funcionado como um espelho das realidades das periferias, e a vida dos “Rauls” não demorou a ser retratada em suas letras. Diferentemente do “funk proibidão” do início dos anos 2000, que focava em assaltos à mão armada e tráfico de drogas, a nova vertente se concentra mais no usufruto do dinheiro ilícito do que na descrição dos golpes em si. MCs como MC Kelvinho e MC Kapela ganharam notoriedade por abordar o tema do estelionato, com sucessos que acumulam milhões de visualizações.
A música “O Corre”, de MC Kelvinho, que soma 22 milhões de visualizações no YouTube, exemplifica essa narrativa com versos como: “Os caras que vivem de golpe / Nocaute no Santa [banco Santander] / É nós que é o corre / E os bicos se espanta / A Civil tenta dar o bote / Tá osso ir em cana / Tá pago o acerto / E a vida tá mansa”. Essa abordagem, que glorifica a “vida mansa” obtida através dos golpes, atrai uma nova geração de funkeiros e ouvintes, que veem nos “Rauls” uma forma de ascensão social, ainda que ilícita.
Um MC paulistano com mais de 15 anos de carreira, que preferiu não se identificar, explicou que os artistas funcionam como cronistas: “Nós estamos na favela e a gente convive, mesmo que indiretamente, com essa realidade. Somos iguais a roteiristas de filme. Nós ouvimos e adaptamos histórias da vida real”. A GR6, maior produtora de funk do país, confirma que a maioria dos grandes nomes do gênero já abordou o tema, refletindo a onipresença dos “Rauls” na cultura popular.
Do streaming musical à tela da Netflix: a cultura dos Rauls em destaque
O sucesso dos “Rauls” nas plataformas de streaming musical, com canções como “300 no 7” de MC GP, MC J Vila e MC Luuky, que detalha a ostentação pós-golpe, pavimentou o caminho para uma expansão ainda maior. Em 2025, a Netflix lançará a série “Rauls”, criada por Kaique Alves, Konrad Dantas e Felipe Braga, os mesmos responsáveis pelo sucesso “Sintonia”. A trama, que promete explorar o mundo dos estelionatários e sua conexão com a música, terá boa parte do elenco composta por MCs, alguns deles já conhecidos por suas canções sobre o tema.
Essa transposição para outras mídias demonstra como a figura do “Raul” se tornou um fenômeno cultural completo, englobando não apenas o ato criminoso, mas toda uma estética e um modo de vida. O “Estilo Raul”, por exemplo, dita tendências de vestuário: para homens, cores neutras (predominantemente preto), poucos acessórios e bolsas transversais de grife; para mulheres, as “Raulas”, macacões ou jaquetas combinados com calças jeans de marcas internacionais e o acessório principal, a presilha no cabelo. Os locais de gasto do dinheiro, como baladas VIP e bebidas caras, também são parte integrante dessa cultura, como retratado nas letras das músicas.
A realidade por trás dos golpes: perfil dos “Rauls” e o olhar da academia
A doutoranda em Antropologia Social pela USP, Ana Clara Klink, que pesquisa o tema, aponta que o crescimento dos crimes de estelionato virtual está intrinsecamente ligado a fatores como a popularização do PIX, a aceleração digital durante a pandemia e o anonimato que a internet proporciona. O perfil predominante dos criminosos é de jovens, entre 18 e 29 anos, com razoável conhecimento tecnológico. “É um crime que acontece fora do espaço público, de forma anônima, sem o emprego de violência e com valores altíssimos envolvidos”, explica Klink, desmistificando a falsa ideia de que os alvos não seriam pessoas inocentes.
O professor de Geografia Urbana da UNIFESP, Gustavo Prieto, que estuda o crime organizado, revela que até mesmo o Primeiro Comando da Capital (PCC) tenta compreender e, de certa forma, cooptar esses novos criminosos. O “setor do progresso” da facção busca atrair os “Rauls” para dentro da organização, sem necessariamente torná-los membros. Prieto descreve esses estelionatários como “micro-empreendedores” que operam de forma autônoma, muitas vezes de suas próprias casas, utilizando apenas um celular e um computador. Essa autonomia, inclusive em relação ao “procedê” (ética do crime), faz com que sejam vistos de forma diferente pelos meios criminosos mais tradicionais.
A forma como o dinheiro dos golpes é gasto também é um ponto de análise. Prieto destaca que a ideia de escassez nas periferias é muitas vezes equivocada. “Pensando numa cidade como São Paulo, esses jovens que praticam estelionato conseguem colocar todo o dinheiro conseguido na própria região em que nasceu. Consequentemente, essa pessoa que gasta muito dinheiro na quebrada, chama atenção e é vista diferente”. Essa circulação de capital ilícito dentro das comunidades cria uma dinâmica econômica e social complexa, onde a figura do “Raul” se torna um símbolo de poder e ostentação, refletindo as contradições de uma sociedade cada vez mais digital e desigual.
Saiba mais sobre o tema no portal G1.
Fonte: g1.globo.com