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Antes da prisão, MC Ryan SP planejava show grandioso e expansão de produtora em meio a esquema bilionário

Ryan SP faz música com DJ Japa NK na Bololô Records Fábio Tito/g1
Ryan SP faz música com DJ Japa NK na Bololô Records Fábio Tito/g1

Em um cenário de efervescência artística e planos ambiciosos, o funkeiro MC Ryan SP, um dos nomes mais populares do cenário musical brasileiro, preparava uma série de novidades para sua carreira. No entanto, esses projetos foram abruptamente interrompidos por uma operação da Polícia Federal que o prendeu, junto a outros influenciadores e artistas, por suspeita de envolvimento em um complexo esquema de lavagem de dinheiro que teria movimentado cerca de R$ 1,6 bilhão.

A prisão do artista, que ostentava o título de mais ouvido do Brasil no Spotify, lançou luz sobre uma intrincada rede criminosa e colocou em xeque a imagem pública de figuras com milhões de seguidores. Antes da deflagração da Operação Narco Fluxo, Ryan SP vislumbrava uma fase de renovação e crescimento, tanto em seus espetáculos quanto em seu empreendimento musical.

Renovação artística e a busca por um palco maior

Os planos de MC Ryan SP para 2026 incluíam uma reformulação completa de seus shows. O artista, que enfrentou cancelamentos e uma diminuição na agenda após ser flagrado agredindo sua companheira, buscava um retorno triunfal aos palcos. A ideia era apresentar um espetáculo de maior duração, com pelo menos uma hora, e uma estética grandiosa, elevando os padrões visuais do funk.

Para isso, o funkeiro planejava se apresentar em casas de show com infraestrutura para palcos maiores, levando pelo Brasil uma réplica da cabeça de um tubarão. O animal, que se tornou um apelido e um símbolo de sua marca, seria o elemento central de uma cenografia impactante. Segundo relatos de pessoas próximas ao g1, Ryan SP chegou a realizar um “show teste” em Brasília (DF), demonstrando entusiasmo com a possibilidade de replicar a produção em grandes palcos por todo o país.

Investimento em novos talentos e a Bololô Records

Além da renovação de sua própria performance, MC Ryan SP também estava focado na expansão de sua produtora recém-criada, a Bololô Records. Após o sucesso de faixas como “Posso Até Não Te Dar Flores”, que impulsionou as carreiras de MC Meno K e DJ Japa NK, o funkeiro estava ativamente em busca de novos talentos pelo Brasil, consolidando seu papel como empresário e mentor no cenário do funk.

Um dos nomes que já integrava o hall de artistas da Bololô Records era MC Black da Penha, um cantor carioca “garimpado” por Ryan nos bailes do Rio de Janeiro. A produtora também visava investir em artistas com sucessos anteriores que necessitavam de um novo impulso, como MC Luuky, que trabalhava em um novo álbum atrelado a um projeto audiovisual. Essa iniciativa demonstrava o desejo de Ryan SP de construir um ecossistema musical robusto, fomentando a carreira de outros artistas e expandindo sua influência no mercado.

A Operação Narco Fluxo: detalhes do esquema bilionário

A Operação Narco Fluxo, um desdobramento da Operação Narco Bet, revelou a complexidade de uma organização criminosa que utilizava uma estrutura sofisticada para lavar mais de R$ 1,6 bilhão. A Polícia Federal cumpriu 33 de 39 mandados de prisão temporária e 45 de busca e apreensão em diversos estados, incluindo São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Espírito Santo, Maranhão, Santa Catarina, Paraná, Goiás e no Distrito Federal.

Entre os detidos, além de MC Ryan SP, estavam MC Poze do Rodo, Raphael Sousa Oliveira (criador da página Choquei), Chrys Dias e outros produtores de conteúdo com grande alcance nas redes sociais. O delegado Marcelo Maceira explicou em coletiva de imprensa que o dinheiro ilícito tinha origem em apostas de plataformas ilegais, rifas digitais clandestinas e tráfico internacional de drogas. Esses recursos eram inicialmente pulverizados em diversas contas para dificultar o rastreamento, uma tática conhecida como “smurfing”.

A rede de lavagem: de influenciadores a bens de luxo

O esquema funcionava através de uma rede estruturada de operadores financeiros, empresas e intermediários. A decisão judicial descreve um sistema com funções bem definidas para captação, armazenamento, circulação e reinserção dos valores no sistema financeiro formal. “Eles usavam processadoras de pagamento para circular um montante relevante de dinheiro e, através delas, partiam para as fases finais de lavagem de dinheiro, utilizando laranjas para que esse dinheiro não chamasse a atenção de autoridades”, detalhou o delegado.

Para ocultar a origem ilícita, o grupo empregava técnicas como o fracionamento de transferências, uso de criptomoedas e movimentações entre empresas e contas de terceiros. A transferência de bens e empresas para familiares ou pessoas interpostas também era comum. Empresas ligadas ao setor artístico e de entretenimento eram usadas para dar aparência legal ao dinheiro, custeando despesas de carreira e cachês de shows. Influenciadores com milhões de seguidores eram contratados para divulgar plataformas de apostas e rifas, atraindo novos recursos e legitimando as operações.

“Essas pessoas públicas com muitos seguidores conseguem movimentar grandes quantias sem chamar atenção dos sistemas de compliance das autoridades e dos bancos. Então, eles são muito úteis e facilmente recrutáveis por essas organizações”, afirmou Maceira. A fase final da lavagem envolvia a conversão do dinheiro em patrimônio milionário, como imóveis, veículos de luxo, joias e outros bens de alto valor, ostentados nas redes sociais. As investigações continuam, e os envolvidos podem responder por associação criminosa, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Durante a operação, foram apreendidos veículos, valores em espécie, documentos, equipamentos eletrônicos, armas e até um colar com a imagem de Pablo Escobar.

As defesas dos artistas

A defesa de MC Ryan SP informou que, até o momento, não teve acesso ao procedimento que tramita sob sigilo, o que a impossibilita de se manifestar especificamente sobre os fatos. Contudo, ressaltou a “absoluta integridade de MC Ryan, bem como a lisura de todas as suas transações financeiras”, afirmando que todos os valores possuem origem comprovada e são submetidos a controle e recolhimento de tributos. A defesa confia que os esclarecimentos serão prestados e a verdade dos fatos demonstrada. A defesa de MC Poze do Rodo, por sua vez, também desconhece os autos e o teor do mandado de prisão, aguardando acesso para se manifestar judicialmente e buscar o restabelecimento da liberdade do artista.

Fonte: g1.globo.com

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