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Alerta médico: uso descontrolado de corticoides eleva risco de glaucoma e cegueira

© Arquivo/Marcello Casal Jr./Agência Brasil
© Arquivo/Marcello Casal Jr./Agência Brasil

O uso inadequado e a aquisição de medicamentos à base de corticoides sem a devida prescrição médica representam uma séria ameaça à saúde ocular, podendo desencadear ou agravar casos de glaucoma. O alerta vem do presidente da Sociedade Brasileira de Glaucoma (SBG), Roberto Murad Vessani, que destaca a gravidade da situação como um problema de saúde pública no Brasil.

O glaucoma é uma doença complexa que afeta diretamente o nervo óptico, geralmente associada à elevação da pressão intraocular. Sem tratamento adequado, a condição pode evoluir para a cegueira irreversível, uma vez que não possui cura. Estima-se que cerca de 1,7 milhão de brasileiros já convivem com a doença, com uma prevalência de 2,5% a 3,5% em indivíduos acima dos 40 anos.

O Perigo Oculto dos Corticoides na Visão

Os corticoides são amplamente utilizados na medicina devido às suas potentes propriedades anti-inflamatórias. Eles são eficazes no tratamento de diversas condições, como irritações oculares, alergias, crises respiratórias, sinusites e dores inflamatórias. A rapidez com que proporcionam alívio muitas vezes leva as pessoas a reutilizarem esses medicamentos por conta própria, sem acompanhamento profissional, sempre que os sintomas reaparecem.

No entanto, essa prática de automedicação, especialmente com colírios para irritação ocular, pomadas ou comprimidos que contêm corticoides, pode ter consequências devastadoras. O uso prolongado dessas substâncias é capaz de alterar o funcionamento natural dos olhos, dificultando a drenagem do líquido que circula dentro do globo ocular. Esse acúmulo eleva a pressão intraocular e, se mantida por tempo excessivo, pode causar lesões permanentes no nervo óptico, resultando no desenvolvimento do glaucoma.

Glaucoma no Brasil: Uma Realidade Preocupante

A prevalência do glaucoma aumenta significativamente com a idade. Segundo Vessani, a partir dos 40 anos, a cada década, a incidência da doença praticamente dobra. Isso torna os idosos um grupo de risco ainda maior, pois muitos deles já possuem outras condições de saúde que podem exigir o uso crônico de corticoides, intensificando o perigo para a visão.

Além dos riscos oculares, a utilização indiscriminada de corticoides pode provocar uma série de outros problemas sistêmicos. Entre eles, destacam-se o aumento da glicose no sangue e o descontrole do diabetes, ganho de peso, retenção de líquidos, hipertensão arterial, enfraquecimento dos ossos, maior suscetibilidade a infecções e alterações hormonais. A complexidade desses efeitos colaterais reforça a necessidade de supervisão médica rigorosa.

A Luta por Mais Rigor na Prescrição e Venda

Diante da gravidade da situação, a Sociedade Brasileira de Glaucoma (SBG), em parceria com o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) e a Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica (SBOP), emitiu uma nota pública. O documento foi encaminhado à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), ao Ministério da Saúde, ao Congresso Nacional e a diversas entidades médicas, com o objetivo de alertar sobre os perigos do uso descontrolado de corticoides pela população.

A iniciativa busca sensibilizar políticos e órgãos reguladores para a necessidade de um controle mais rigoroso sobre a venda e prescrição desses medicamentos, similar ao que já ocorre com os antibióticos. Para os antibióticos, é exigida a retenção de uma via da receita médica pela farmácia, garantindo um controle mais efetivo e dificultando a automedicação. “Para nós, é muito importante que o uso de corticoides nas diversas formas tenha o mesmo rigor que ocorre em relação aos antibióticos”, enfatiza Roberto Vessani.

Essa medida visa não apenas proteger os pacientes que buscam o autotratamento, mas também garantir que médicos de outras especialidades – como ortopedia, reumatologia, pediatria e geriatria – estejam cientes dos riscos oculares ao prescrever corticoides, especialmente para pacientes que já podem ter glaucoma.

Conscientização e Monitoramento: Caminhos para a Prevenção

A SBG, o CBO e a SBOP têm promovido campanhas de informação para alertar tanto a população quanto os profissionais de saúde sobre os riscos do uso crônico de corticoides. A conscientização é fundamental, pois cerca de 90% dos pacientes com glaucoma são sensíveis a essas substâncias, o que pode levar a um aumento significativo da pressão ocular e agravar o quadro da doença.

Crianças alérgicas, por exemplo, que frequentemente apresentam histórico de alergia ocular, podem ser expostas a colírios com corticoides de forma crônica por falta de conhecimento dos pais. Isso pode resultar não apenas no aumento da pressão intraocular, mas também no desenvolvimento precoce de catarata. Em muitos países desenvolvidos, o controle sobre o uso de corticoides é mais rigoroso, e há uma troca de informações mais eficiente entre as especialidades médicas.

As três entidades médicas recomendam o monitoramento regular da pressão intraocular em todos os pacientes que utilizam medicações com corticoides por períodos prolongados, com atenção especial a crianças e indivíduos em grupos de risco. “A grande preocupação é com a informação e a conscientização da população e dos profissionais da área da saúde que prescrevem essas medicações”, reforça Vessani. A vigilância e a educação são as principais ferramentas para diminuir os riscos e evitar problemas maiores para a visão da população. Para mais informações sobre a doença, consulte a Agência Brasil.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

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