Aos 20 anos, o cineasta Kane Parsons, conhecido no YouTube como Kane Pixels, faz sua aguardada estreia em Hollywood com o filme de terror “Backrooms: Um não-lugar”. A produção, que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (28), promete ser um marco, com projeções indicando que pode liderar as bilheterias americanas em seu fim de semana de lançamento. Este feito é ainda mais notável considerando que Parsons criou a série original que inspira o filme quando tinha apenas 16 anos, transformando uma lenda urbana da internet em um fenômeno global.
O filme não só representa a transição bem-sucedida de um criador de conteúdo digital para o cinema mainstream, mas também destaca a capacidade de novas plataformas de moldar a próxima geração de talentos. Com um elenco que inclui dois atores indicados ao Oscar, Chiwetel Ejiofor (“12 anos de escravidão”) e Renate Reinsve (“Valor sentimental”), “Backrooms” é uma aposta audaciosa do estúdio independente A24, conhecido por produções aclamadas e inovadoras.
Backrooms: A Ascensão de uma Lenda Urbana Digital ao Cinema
A gênese de “Backrooms” remonta a 2019, quando uma foto enigmática de uma sala de escritório com paredes amareladas e carpete foi publicada em um fórum online. A imagem, com sua estranheza peculiar, rapidamente inspirou a criação coletiva de uma vasta mitologia em torno dessas “salas dos fundos” – os “Backrooms” no inglês. Essa “creepypasta”, como são chamadas as lendas urbanas da internet, capturou a imaginação de milhões, tornando-se um dos fenômenos mais intrigantes da cultura digital.
Foi nesse cenário que Kane Parsons, então com 16 anos, decidiu dar vida à lenda. Em 2022, ele lançou o primeiro vídeo de sua série “Backrooms” no YouTube. O sucesso foi instantâneo e estrondoso: 20 milhões de visualizações em apenas duas semanas, um número que hoje ultrapassa os 78 milhões. A série, que conta com 22 capítulos de durações variadas, raramente teve vídeos com menos de um milhão de visualizações, solidificando a base de fãs e o potencial narrativo da história.
Parsons produziu os primeiros vídeos quase sozinho, utilizando programas de modelagem 3D e a ajuda de alguns amigos. Para contornar as limitações de equipamento e experiência, ele adotou uma narrativa em primeira pessoa, simulando a gravação de uma antiga câmera de videocassete. Essa estética “found footage” não apenas disfarçou imperfeições, mas também intensificou a imersão e o terror psicológico, características que se tornaram marcas registradas da série.
Do Quarto para Hollywood: A Trajetória de Kane Parsons
O reconhecimento da série “Backrooms” no YouTube rapidamente chamou a atenção da indústria cinematográfica. Em menos de um mês após o lançamento do primeiro vídeo, Parsons começou a receber inúmeros e-mails de produtores interessados em uma adaptação. Inicialmente cético devido à sua falta de experiência no setor, o jovem youtuber encontrou apoio fundamental.
Com a ajuda de produtoras ligadas a nomes como James Wan (“Jogos Mortais”, “Invocação do Mal”) e Shawn Levy (“Deadpool e Wolverine”), Parsons se uniu ao roteirista Will Soodik (“Ash vs. Evil Dead”) para desenvolver um rascunho. Esse projeto foi então apresentado à A24, um estúdio independente de renome, responsável por sucessos como “A Bruxa”, “Hereditário”, “Moonlight” e “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo”. A A24 abraçou a parceria, reconhecendo o potencial da história e do talento de Parsons.
Apesar da pouca idade e de dirigir atores indicados ao Oscar, Kane Parsons afirmou que sua profunda familiaridade com o universo de “Backrooms” o ajudou a não se intimidar. “Eu sei como construir esse mundo. Estou muito familiarizado com ‘Backrooms’ e definitivamente não tenho nenhum tipo de confusão criativa”, declarou ele em entrevista. Essa confiança e clareza criativa foram cruciais para comunicar sua visão e garantir a liberdade artística que o estúdio concedeu, permitindo-lhe criar uma versão do filme que agradasse tanto aos fãs da série quanto a novos públicos.
O Impacto de “Backrooms” e a Nova Geração de Cineastas Digitais
A expectativa de que “Backrooms: Um não-lugar” arrecade entre US$ 40 milhões e US$ 50 milhões em seu fim de semana de estreia nos Estados Unidos não é apenas um sucesso para Kane Parsons, mas também um recorde potencial para a A24. Esse desempenho sublinha a crescente influência de criadores digitais no cenário de Hollywood e a capacidade de narrativas nascidas na internet de transcender plataformas.
Parsons se insere em uma tendência cada vez mais evidente: a de youtubers que se tornam cineastas. Nomes como David F. Sandberg (“Shazam!”), Danny e Michael Philippou (“Fale Comigo”), e Curry Barker (“Obsessão”) são exemplos de como a plataforma de vídeos se tornou um celeiro de talentos. Mark Fischbach, o Markiplier, chegou a financiar, dirigir e estrelar seu próprio filme, “Iron Lung: Oceano de Sangue”, demonstrando a autonomia e o poder de alcance desses criadores.
Para Parsons, o YouTube funciona como uma “vitrine” ou um “ponto de entrada” essencial para a indústria. “Não existe vaga para todo mundo que queira fazer algo em Hollywood”, ele observa, destacando que a plataforma permite que criadores desenvolvam seus projetos e chamem a atenção de grandes empresas. A mensagem é clara: a internet é o palco onde talentos podem ser vistos e, com dedicação, transformar suas criações digitais em grandes produções cinematográficas, como “Backrooms” exemplifica. Para mais informações sobre o estúdio, visite A24 Films.
Fonte: g1.globo.com