Há quase um século, um livro revolucionou o gênero policial e desafiou as convenções literárias, solidificando o status de sua autora como a Rainha do Crime. Em 2013, em uma votação histórica promovida pela Associação Britânica de Escritores Policiais (CWA), o romance “O Assassinato de Roger Ackroyd”, de Agatha Christie, foi eleito o melhor de todos os tempos. A obra, que completa cem anos de sua publicação em formato de folhetim, continua a intrigar e fascinar leitores e críticos, provando que seu impacto transcende gerações.
A disputa pelo título de melhor romance policial foi acirrada, contando com clássicos como “O Cão dos Baskervilles”, de Arthur Conan Doyle, e “O Silêncio dos Inocentes”, de Thomas Harris. No entanto, com 600 votos, a trama engenhosa de Christie se destacou, consolidando seu lugar no panteão da literatura de mistério. Publicado inicialmente como folhetim no jornal London Evening News entre 16 de julho e 16 de setembro de 1925, sob o título “Quem Matou Ackroyd?”, o livro chegou ao Brasil em 1933, traduzido por Leonel Vallandro.
A Reviravolta que Chocou o Gênero
O grande trunfo de “O Assassinato de Roger Ackroyd” reside em sua audaciosa reviravolta final, um plot twist que, na época, não tinha nome, mas que se tornaria um marco. “Esse romance tem características imitadas, mas jamais igualadas, que fazem dele um clássico instantâneo: uma delas é o plot twist no final”, observa Renan Castro, editor-assistente da Globo Livros, que lançou uma edição de luxo comemorativa da obra. A inovação de Christie foi tão impactante que gerou debates acalorados sobre as “regras do jogo” na ficção policial, questionando se a autora havia jogado limpo com o leitor.
O escritor Jared Cade, autor de obras sobre a vida de Christie, reitera a genialidade do livro. “É, sem dúvida, o melhor romance policial do século 20”, afirma. Ele destaca a simplicidade enganosa da trama, que se apresenta como um mistério convencional, mas subverte as expectativas. “Estudos literários sobre ficção policial debatem se ela jogou limpo com o leitor ou se desrespeitou as regras do gênero. A maioria dos leitores hoje aceita que é responsabilidade deles suspeitar de todo e qualquer personagem, um por um”, explica Cade.
A Gênese de uma Ideia Revolucionária
A inspiração para a trama veio de sugestões inusitadas. Em sua autobiografia, Agatha Christie atribui a ideia central a duas pessoas: seu cunhado, James “Jimmy” Watts, e o lorde Louis Mountbatten. Watts, após ler um romance policial, expressou o desejo de ver um “Watson que virasse criminoso”, referindo-se ao fiel escudeiro de Sherlock Holmes. Mountbatten, por sua vez, sugeriu que a história fosse narrada em primeira pessoa por alguém que, no final, fosse o próprio assassino.
Christie, que não conseguia imaginar o Capitão Arthur Hastings, companheiro de Hercule Poirot, como um assassino, encontrou uma solução engenhosa. Ela enviou Hastings para a Argentina e introduziu o Dr. James Sheppard, médico da pacata King’s Abbot, como o narrador da história. Essa escolha permitiu que a autora manipulasse a percepção do leitor de forma brilhante. “Muitos dizem que O Assassinato de Roger Ackroyd é enganador. Mas, se o lerem com cuidado, verificarão que estão errados”, ponderou a própria autora, que já era uma estrela em ascensão, com mais de 70 contos publicados antes mesmo deste sucesso.
Entre Críticos e Fãs: O Legado de Christie
Embora a CWA tenha coroado “O Assassinato de Roger Ackroyd”, a preferência dos fãs pode variar. Em uma enquete mundial de 2015, promovida pelo site oficial da escritora, “E Não Sobrou Nenhum” (1939) foi eleito o favorito, seguido por “O Assassinato no Expresso do Oriente” (1934). “O Assassinato de Roger Ackroyd” ficou em terceiro lugar, demonstrando a diversidade e a riqueza da obra de Christie.
“‘E Não Sobrou Nenhum’ é um suspense que, em determinadas cenas, flerta com o horror”, descreve Jean Pierre Chauvin, doutor em Letras pela USP. A obra, originalmente intitulada “O Caso dos Dez Negrinhos”, teve seu nome alterado devido a conotações racistas, e era o favorito da própria Agatha Christie. Já “O Assassinato no Expresso do Oriente” é frequentemente citado por sua resolução magistral, como aponta o tradutor Érico Assis. A jornalista pernambucana Duda Menezes resume o apelo de “O Assassinato de Roger Ackroyd”: “reúne o melhor de Agatha Christie: a presença de Hercule Poirot, um vilarejo pacato, incontáveis suspeitos, álibis engenhosos, uma narrativa envolvente e manipulação, muita manipulação.”
A Presença de Agatha Christie no Brasil
A obra de Agatha Christie mantém uma forte presença no Brasil, sendo publicada por editoras como Globo Livros, L&PM e HarperCollins. O país foi o terceiro que mais votou na enquete mundial de 2015, evidenciando o engajamento dos leitores brasileiros. Alice Mello, editora-executiva da HarperCollins Brasil, ressalta a subjetividade do conceito de “melhor”, mas concorda que, “se formos avaliar pela audácia da solução, por exemplo, O Assassinato de Roger Ackroyd merece o título”.
Tradutores como Samir Machado de Machado, que considera “O Assassinato de Roger Ackroyd” o mais engenhoso da autora, desafiam os leitores: “É quase impossível para o leitor desvendar o mistério final. É um dos poucos livros dela que vale a releitura. Justamente para ver como o passo a passo do assassino foi mascarado.” Essa capacidade de surpreender e convidar à releitura é o que garante a perenidade da obra de Agatha Christie, que continua a ser adaptada para diversas mídias, como a peça “Álibi”, de 1928, e a inspirar novas gerações de escritores e fãs do gênero policial. Para aqueles que buscam uma experiência literária que desafia a mente, “O Assassinato de Roger Ackroyd” permanece uma leitura essencial.
Fonte: g1.globo.com