Após dois anos consecutivos de reconhecimento na maior premiação do cinema mundial, a expectativa em torno do Oscar 2027 para o Brasil atinge um novo patamar. Com as recentes indicações de “Ainda estou aqui” em 2025 e “O agente secreto” em 2026, a pergunta ecoa nos corredores da indústria cinematográfica e entre o público: quais são as reais chances de o cinema brasileiro emplacar uma terceira indicação seguida? A resposta, embora ainda incerta, aponta para um caminho bem definido, onde os grandes festivais internacionais desempenham um papel crucial.
A corrida por uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional é longa e complexa, mas os primeiros sinais começam a surgir com a temporada de festivais. É nesses palcos globais que as produções nacionais buscam visibilidade, aclamação crítica e, o mais importante, a atenção de distribuidores que podem impulsionar suas campanhas rumo à estatueta dourada. O calendário dos festivais se torna, assim, um termômetro essencial para medir o potencial de um filme brasileiro no cenário internacional.
Festivais Internacionais: a porta de entrada para o Oscar 2027
Os festivais de cinema de prestígio, como Cannes e Veneza, consolidaram-se como verdadeiras vitrines para as produções que almejam o Oscar. Historicamente, a exibição e premiação nesses eventos aumentam exponencialmente as chances de um filme ser notado pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Nos últimos dois anos, por exemplo, quatro dos cinco indicados à categoria de Melhor Filme Internacional foram exibidos ou premiados no Festival de Cannes.
O Festival de Cannes, que este ano acontece entre os dias 12 e 23 de maio, é um dos mais renomados e aguardados. Sua seleção, divulgada por volta de 9 de abril, já oferece pistas valiosas sobre quais filmes podem ganhar fôlego na corrida. Da mesma forma, o Festival de Veneza, programado para 2 a 23 de setembro, anuncia seus selecionados na última semana de julho e tem sido igualmente decisivo, como visto com “Ainda estou aqui” (2025) e “A voz de Hind Rajab” (2026), ambos premiados no evento italiano.
Além do prestígio e da crítica, esses festivais são fundamentais para que os filmes encontrem distribuidores dispostos a levá-los para o mercado norte-americano e a financiar as dispendiosas campanhas de Oscar. Um exemplo notável foi “O agente secreto” (2025), que, após receber elogios em Cannes, foi adquirido pela Neon, uma distribuidora americana conhecida por sua expertise em campanhas bem-sucedidas.
O desafio de uma sequência inédita e a escolha nacional
Apesar do recente sucesso, o Brasil enfrenta um desafio histórico: nunca conseguiu indicações ao Oscar em três anos consecutivos. Essa marca, dentro da categoria de Melhor Filme Internacional, é rara. Nos últimos dez anos, apenas a Alemanha alcançou tal feito, com indicações em 2023, 2024 e 2025. Essa estatística sublinha a dificuldade e a competitividade da categoria, tornando a busca brasileira por uma terceira vaga ainda mais notável.
A escolha do representante brasileiro é uma tarefa da Academia Brasileira de Cinema, que se baseia em diversos critérios, incluindo, mas não se limitando, ao desempenho em festivais. Contudo, essa lógica não é infalível. Em 2019, a Academia teve que ponderar entre “Bacurau”, vencedor do Prêmio do Júri em Cannes, e “A vida invisível”, que levou o prêmio da mostra paralela Um Certo Olhar. Embora “A vida invisível” tenha sido o escolhido, não garantiu a indicação ao prêmio americano, mostrando a imprevisibilidade do processo.
Filmes brasileiros no radar para o Oscar 2027
Embora seja cedo para cravar favoritos, algumas produções nacionais já despontam como potenciais candidatas, gerando burburinho e expectativa. O reconhecimento em festivais menores ou a presença de nomes de peso no elenco e na direção são fatores que podem impulsionar a visibilidade desses títulos.
- “Feito pipa”: Dirigido por Allan Deberton, o filme conta com a atuação de Lázaro Ramos e já conquistou dois prêmios na mostra Generation do Festival de Berlim, dedicada a filmes com temas infantis e juvenis.
- “Geni e o zepelim”: Uma adaptação da icônica música de Chico Buarque, dirigida por Anna Muylaert, que traz Seu Jorge no elenco. A combinação de uma obra clássica com talentos reconhecidos confere grande potencial à produção.
- “Escola sem muros”: Do aclamado diretor Cao Hamburger, conhecido por trabalhos que dialogam com o público jovem e abordam questões sociais relevantes.
- “Leila e a noite”: Produzido por Kleber Mendonça Filho, um nome já consolidado no cinema nacional e internacional, o filme certamente atrairá olhares.
- “Vicentina pede desculpas”: Dirigido por Gabriel Martins, que já demonstrou sua capacidade de contar histórias impactantes e relevantes.
- “No jardim do ogro”: Estrelado por Alice Braga, uma atriz com carreira internacional, o que pode agregar visibilidade à produção.
A presença de diretores renomados e atores com reconhecimento nacional e internacional, como Lázaro Ramos, Seu Jorge e Alice Braga, é um diferencial importante. Esses nomes não apenas atraem o público, mas também a atenção da crítica e dos comitês de seleção de festivais, facilitando o caminho para uma possível campanha de Oscar.
A complexidade da campanha e a busca por distribuição
Conquistar uma indicação ao Oscar vai muito além da qualidade artística do filme. É preciso uma campanha robusta, que envolve exibições estratégicas, publicidade, relações públicas e, muitas vezes, um intenso lobby junto aos membros da Academia. Para o cinema brasileiro, que frequentemente opera com orçamentos mais limitados em comparação às grandes produções de Hollywood, a parceria com uma distribuidora americana é quase indispensável.
Essas empresas não apenas garantem a exibição do filme nos Estados Unidos, mas também investem financeiramente na campanha, que pode custar milhões de dólares. A visibilidade e o buzz gerados em festivais como Cannes e Veneza são, portanto, cruciais para atrair essas parcerias, transformando o reconhecimento artístico em uma oportunidade real de disputa pela estatueta. O caminho para o Oscar 2027 é longo e desafiador, mas o talento e a resiliência do cinema brasileiro mantêm a chama da esperança acesa.
Fonte: g1.globo.com