A noite de 28 de março de 2026 foi marcada por um espetáculo de profunda emoção e significado no cenário cultural carioca. No charmoso Acaso Cultural, recém-inaugurado polo de arte no Rio de Janeiro (RJ), a cantora mineira Paula Santoro subiu ao palco para apresentar seu show “Tudo que você podia ser”. Mais do que uma performance musical, a ocasião simbolizou uma renovada promessa de vida para a artista, que se apresentou pela primeira vez totalmente curada do câncer enfrentado ao longo de 2025.
Com o pianista e arranjador gaúcho Rafael Vernet ao seu lado, Paula Santoro mergulhou no cancioneiro de dois dos maiores ícones da música mineira, Milton Nascimento e Lô Borges. A celebração da cura foi explicitada ao fim do show, em um discurso emocionante à plateia, que incluía amigos, familiares, alunos (Santoro também é professora de canto e fonoaudióloga) e jornalistas, todos admiradores de sua exemplar técnica vocal e de sua jornada de superação.
A celebração da vida e a voz de Paula Santoro
O verso “Tenho muito o que viver”, da clássica “Travessia” (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1967), ressoou com um sentido especial na voz de Paula Santoro. A escolha do repertório, focado nos compositores mineiros, ganhou uma camada extra de significado, transformando cada nota em um hino à resiliência e à alegria de estar viva. O show “Tudo que você podia ser” é uma evolução de uma apresentação anterior de 2024, também em duo com Rafael Vernet, mas com um foco mais específico na obra solo de Lô Borges, que trouxe um frescor ao roteiro.
A parceria de longa data com Rafael Vernet é um pilar fundamental para a cantora. O pianista, conhecido por sua sensibilidade e arranjos sofisticados, complementa a voz de Santoro, criando uma atmosfera musical rica e envolvente. Juntos, eles exploram as nuances das composições, revelando a complexidade e a beleza intrínseca das obras de Milton e Lô.
O legado do Clube da Esquina e a maestria interpretativa
O repertório do show é um tributo à efervescência criativa que marcou o Clube da Esquina, movimento que surgiu em Minas Gerais entre o fim dos anos 1960 e o início dos anos 1970, liderado por Milton Nascimento. Esse coletivo de artistas, que incluía Lô Borges, Fernando Brant, Márcio Borges, Beto Guedes, entre outros, revolucionou a música brasileira com sua fusão de ritmos, poesia e experimentação harmônica. A obra de Lô Borges, em particular, com suas melodias intrincadas e letras poéticas, encontra em Paula Santoro uma intérprete ideal.
A cantora demonstrou sua habilidade em desbravar os caminhos harmônicos inusitados de Lô ao apresentar “O caçador” (Lô Borges e Márcio Borges, 1972). Essa canção, presente no primeiro álbum solo de Lô, popularmente conhecido como “O disco do tênis”, é um retrato da tensão e da repressão vividas no Brasil durante os anos 1970, período da ditadura militar. A interpretação de Santoro trouxe à tona a densidade e a crítica social inerentes à letra de Márcio Borges.
A profundidade das letras e a maestria vocal
A denúncia do terror da ditadura foi revisitada em outros momentos marcantes do show, como em “Léo” (Milton Nascimento e Chico Buarque, 1978) e “E daí?” (Milton Nascimento e Ruy Guerra, 1978). Neste último, o canto de Paula Santoro atingiu um dos pontos mais altos da noite, evidenciando seu impressionante alcance vocal e a capacidade de transmitir a profundidade emocional das composições. “Outubro” (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1967) foi outro exemplo da maestria da cantora em valorizar músicas de arquitetura sofisticada, sem nunca cair no virtuosismo gratuito.
Além das canções mais densas, Santoro brilhou na delicadeza de “A Via Láctea” (Lô Borges e Márcio Borges, 1979), faixa-título do álbum considerado a obra-prima da discografia solo de Lô Borges, e “Quem sabe isso quer dizer amor” (Lô Borges e Márcio Borges, 2002), uma composição melodiosa com alto poder de sedução. Sua interpretação dessas canções revelou a versatilidade e a sensibilidade que a tornam uma das vozes mais respeitadas da música brasileira contemporânea.
Comunhão no palco: a interação com o público
Desde o primeiro acorde de “Ponta de areia” (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1974), o clima de comunhão entre a artista e o público foi evidente. Paula Santoro incentivou o coro da plateia, criando momentos de intensa participação. No bis, ao interpretar “O trem azul” (Lô Borges e Ronaldo Bastos, 1972), ela ensinou a divisão vocal adotada por Elis Regina (1945 – 1982), transformando o teatro em um grande coro. A canção “Um girassol da cor de seu cabelo” (Lô Borges e Márcio Borges, 1972) começou serena e evoluiu para um suingue percussivo após um solo de Rafael Vernet, novamente convidando a plateia a cantar junto.
Embora o coro do público por vezes pudesse ofuscar a voz da artista, essa interação fez todo o sentido em um show que era, acima de tudo, uma celebração da vida. Entre sucessos conhecidos e joias do cancioneiro de Lô Borges, como “Ela” (Lô Borges e Márcio Borges, 1979), Paula Santoro seguiu sua travessia mineira com toda a propriedade, fazendo de sua voz e de sua presença no palco um testemunho vivo de sua recuperação e de sua paixão pela música. O espetáculo no Acaso Cultural não foi apenas um concerto, mas um marco de renascimento e uma inspiração para todos os presentes.
Fonte: g1.globo.com