A Rocinha, reconhecida como a maior favela do Brasil e um dos símbolos mais complexos e vibrantes do Rio de Janeiro, tem suas histórias contadas de diversas formas. No entanto, poucas narrativas conseguem capturar a essência do dia a dia com a autenticidade de quem realmente vive ali. É nesse contexto que Ruan Gabriel da Silva Nascimento, conhecido nas redes sociais como Ruan Juliett, emerge como uma voz poderosa, viralizando ao compartilhar a rotina da comunidade.
Há aproximadamente seis anos, Ruan, nascido e criado na Rocinha, decidiu usar seu celular para documentar a vida em sua comunidade. Sem roteiros pré-definidos ou produções elaboradas, ele grava o que vê e o que vive, oferecendo um olhar cru e genuíno. O que começou como vídeos simples, feitos enquanto ajudava o pai na venda de controles remotos, transformou-se em um retrato cotidiano que atrai centenas de milhares de seguidores.
A Rocinha pelos olhos de quem vive
A proposta de Ruan é simples: mostrar a Rocinha como ela é, sem romantizações ou dramatizações exageradas. Sua abordagem espontânea é a chave para o sucesso. “Eu vou encontrando as situações e vou gravando. Nada é planejado”, explica o jovem. Essa naturalidade ressoa com o público, que busca uma compreensão mais profunda da vida em comunidades.
Atualmente, Ruan Juliett soma cerca de 744 mil seguidores no Instagram e mais de 900 mil no TikTok, números que atestam o alcance e a relevância de seu trabalho. Para ele, a Rocinha é uma fonte inesgotável de histórias. “Assunto não falta. Toda hora tem alguma história, toda hora tem alguma coisa acontecendo”, afirma, destacando a efervescência cultural e social do local.
Desafios e soluções criativas da Rocinha
Nos vídeos de Ruan, a Rocinha se revela como um organismo vivo, pulsante e cheio de particularidades. As imagens mostram ruas movimentadas, o constante ir e vir de motos, moradores interagindo nas portas de suas casas e crianças brincando pelos becos. A moto, em particular, é um elemento central na mobilidade da comunidade, servindo tanto aos residentes quanto aos turistas curiosos em explorar a região. “É muita gente para pouca rua”, descreve Ruan, referindo-se aos milhares de mototaxistas que operam no bairro informal.
Onde as motos não conseguem chegar, os famosos becos da Rocinha assumem o protagonismo. Estreitos, íngremes e repletos de degraus, esses caminhos conectam as casas construídas de forma orgânica, umas sobre as outras. “Para passar duas pessoas aqui, tem que ser de lado. É uma por vez”, demonstra Ruan, evidenciando os desafios diários de locomoção.
Além da mobilidade, os vídeos de Ruan expõem as dificuldades estruturais. A falta de corrimãos em escadarias, a necessidade de carregar botijões de gás nas costas e a complexidade das entregas sem endereços formais são realidades constantes. Um de seus conteúdos mais notáveis, por exemplo, mostra uma geladeira sendo içada pelo lado de fora de uma casa, suspensa por cordas, após a remoção de uma janela. “A vida aqui é uma verdadeira adaptação. A gente aprende a se virar”, resume ele, destacando a resiliência e a inventividade dos moradores.
Quebrando estigmas e sonhando com o futuro
Ruan faz questão de frisar que seu trabalho vai além da simples documentação. Seu principal objetivo é combater estigmas e preconceitos antigos associados às favelas. “Antes, quando se falava de favela, era só tiro, porrada e bomba. Eu tento mostrar um Brasil que muita gente nunca parou pra imaginar que existe”, declara. Ele busca apresentar a diversidade, a cultura e a humanidade que muitas vezes são ofuscadas por narrativas negativas na mídia tradicional.
Para o influenciador, a visibilidade de seu conteúdo deve ser um catalisador para a transformação. Entre seus sonhos, estão melhorias básicas para a comunidade, como a instalação de mais corrimãos, uma coleta de lixo mais eficiente, moradias mais dignas e, fundamentalmente, mais oportunidades para os jovens da Rocinha. Sua plataforma se torna, assim, um espaço de denúncia e de esperança, amplificando as vozes e as necessidades de sua vizinhança.
A “casa de vidro” e a construção de um sonho
Apesar da projeção nacional e do sucesso nas redes sociais, Ruan Juliett mantém suas raízes. Ele ainda reside com os pais em uma casa simples de três cômodos dentro da Rocinha. Foi apenas entre 2023 e 2024 que ele começou a monetizar seu trabalho na internet. Seus primeiros ganhos foram direcionados para melhorias em casa, como a troca de eletrodomésticos antigos e o apoio à família.
“Eu sempre dormi no sofá da sala. Meu sonho, quando criança, era ter um quarto”, relembra, revelando um desejo pessoal que reflete a realidade de muitos jovens em comunidades. Hoje, seu maior objetivo é construir uma casa para seus pais, um projeto que ele também documenta em suas redes sociais. Desde a diária do pedreiro até o transporte manual de tijolos pelos becos, cada etapa da construção é compartilhada, mostrando o esforço e a dedicação envolvidos.
A casa ainda não está pronta, mas Ruan não tem pressa. Ele segue construindo, tanto sua carreira quanto o lar de sua família, com a mesma paciência e autenticidade que caracterizam seus vídeos. “Eu nunca pensei que a minha vida fosse virar conteúdo. Mas é isso. Essa aqui é a minha casa de vidro”, conclui, usando a metáfora para descrever a transparência com que compartilha sua vida e a realidade da Rocinha com o mundo. Acompanhe mais sobre a Rocinha no G1.
Fonte: g1.globo.com