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Pesquisa do IBGE revela que metade dos adolescentes está desprotegida contra o HPV

99% dos casos de câncer de colo do útero e por boa parte dos tumores de ânus, pê
99% dos casos de câncer de colo do útero e por boa parte dos tumores de ânus, pê

A vacina contra o HPV, oferecida gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) como uma ferramenta crucial na prevenção de diversos tipos de câncer, não está alcançando a totalidade de seu público-alvo no Brasil. Dados recentes da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), acendem um alerta sobre a baixa cobertura vacinal entre adolescentes, deixando milhões de jovens vulneráveis a doenças graves.

O estudo, cujos dados foram coletados em 2024, revelou que apenas 54,9% dos estudantes brasileiros com idades entre 13 e 17 anos tinham certeza de terem sido vacinados contra o papilomavírus humano (HPV). Este cenário aponta para uma lacuna significativa na proteção de uma parcela considerável da população jovem, justamente no período em que a imunização é mais eficaz.

Ameaça silenciosa: o HPV e seus riscos à saúde

O HPV é um vírus de alta prevalência, transmitido principalmente por via sexual, e é o principal agente etiológico de vários tipos de câncer. Ele é responsável por impressionantes 99% dos casos de câncer de colo do útero, uma das neoplasias mais comuns entre mulheres, e também está associado a uma parcela significativa de tumores de ânus, pênis, boca e garganta. A prevenção por meio da vacina é, portanto, uma estratégia de saúde pública de extrema importância.

A recomendação para a aplicação da vacina é para meninas e meninos entre 9 e 14 anos. Essa faixa etária é crucial porque a imunização é mais eficaz quando realizada antes da primeira relação sexual, garantindo que o organismo desenvolva a proteção necessária antes de qualquer exposição ao vírus. A vacina está disponível em todas as unidades de saúde do país, reforçando o compromisso do SUS com a imunização da população.

Cobertura vacinal em queda: os dados alarmantes do IBGE

Os números da PeNSE são preocupantes. Além dos 54,9% de estudantes que afirmaram ter sido vacinados, a pesquisa identificou que 10,4% ainda não haviam recebido o imunizante, e 34,6% não sabiam informar se estavam protegidos ou não. Isso se traduz em aproximadamente 1,3 milhão de adolescentes desprotegidos e outros 4,2 milhões potencialmente vulneráveis à infecção pelo HPV.

A situação é ainda mais alarmante quando comparada à edição anterior da pesquisa, de 2019. A porcentagem de estudantes vacinados caiu 8 pontos percentuais. Embora uma proporção maior de meninas (59,5%) tenha se vacinado em comparação com os meninos (50,3%), a queda na cobertura entre as garotas foi ainda mais expressiva, atingindo 16,6 pontos percentuais. O estudo também revelou que 30,4% dos estudantes de 13 a 17 anos já tinham vida sexual ativa, com idade média de iniciação de 13,3 anos para meninos e 14,3 anos para meninas, sublinhando a urgência da vacinação precoce.

Barreiras à imunização: desinformação e acesso

A pesquisa do IBGE aprofundou as razões para a não vacinação. Metade dos estudantes que não receberam a dose alegou desconhecer a necessidade da vacina. Para Isabela Balallai, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações, a falta de informação é um fator preponderante. “Todo mundo acha que a hesitação vacinal se resume às fake news, mas não é isso. A desinformação é só uma das coisas que causam a hesitação vacinal. As outras são a falta de acesso, a baixa percepção do risco da doença e a falta de informação. E isso é um problema máximo no Brasil. Muitas pessoas não sabem quando têm que se vacinar e quais as vacinas disponíveis”, explica.

Outros motivos, embora em menor proporção, também foram citados: 7,3% dos estudantes disseram que pais ou responsáveis não quiseram a vacinação; 7,2% não sabiam a função da vacina; e 7% alegaram dificuldade de acesso ao local de vacinação. A pesquisa também apontou diferenças entre redes de ensino: 11% dos alunos da rede pública não se vacinaram, contra 6,9% da rede privada. No entanto, a resistência dos pais foi mais alta na rede privada (15,8%) do que na pública (6,3%).

O papel crucial da escola e as estratégias de resgate

Diante desse cenário, a escola emerge como um ambiente com potencial transformador na melhoria das taxas de vacinação. Isabela Balallai enfatiza que a instituição de ensino pode resolver diversas barreiras: “Quando você pega os principais fatores de hesitação vacinal, a escola resolve todos eles. Resolve a desinformação, educando o adolescente. Resolve a falta de informação, quando eles são informados que vai ter a vacinação. Resolve o acesso, porque é muito difícil levar um adolescente ao posto de saúde, mas vacinar na escola é muito mais simples. E resolve a conscientização dos pais”.

Um exemplo positivo vem da jornalista Joana Darc Souza, cujas filhas mais velhas, de 9 e 12 anos, já estão imunizadas. Ela destaca a importância da informação e do acompanhamento pediátrico. “Eu nunca tive dúvida em relação à eficácia e sempre defendi que vacina salva vidas. Isso é uma coisa que eu aprendi em casa, quando ainda era criança, e hoje eu replico com as minhas filhas”, conta. Ela menciona que as escolas municipais do Rio de Janeiro, onde suas filhas estudam, ocasionalmente convocam os alunos para se vacinarem, facilitando o acesso.

O Ministério da Saúde tem atuado para reverter esse quadro. Dados preliminares de 2025 indicam uma cobertura maior do que a verificada na pesquisa, com 86% entre meninas e 74,4% entre meninos. Desde 2024, a vacina contra o HPV é aplicada em dose única, simplificando o esquema vacinal. Além disso, a pasta lançou uma estratégia de resgate vacinal para adolescentes de 15 a 19 anos que perderam a idade recomendada, com ações previstas até junho de 2026, incluindo campanhas nas escolas. Para verificar o status vacinal, os cidadãos podem consultar o aplicativo Meu SUS Digital.

A proteção contra o HPV é um investimento na saúde futura dos jovens e na redução da incidência de cânceres evitáveis. A conscientização e a facilitação do acesso à vacina são passos essenciais para garantir que nenhum adolescente fique desprotegido.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

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