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Brasil ainda registra centenas de mortes maternas anuais

© Jas/Pixabay
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O Brasil continua a enfrentar um desafio persistente e alarmante na área da saúde pública: a mortalidade materna. Centenas de mulheres ainda perdem a vida anualmente durante a gestação ou nos 42 dias seguintes ao término da gravidez. Este cenário, que reflete a necessidade urgente de aprimoramento dos serviços de saúde e da atenção à mulher, coloca o país distante das metas internacionais de redução desses óbitos, muitos dos quais são considerados evitáveis.

Os dados mais recentes, referentes a 2024, revelam uma razão de mortalidade materna de 56,4 a cada 100 mil nascidos vivos. Em 2024, foram registrados 1.347 óbitos, um número que sublinha a gravidade da situação. A meta nacional estabelecida é ambiciosa: reduzir esse índice para 30 mortes a cada 100 mil nascidos vivos até 2030. Essa disparidade entre a realidade atual e o objetivo traçado evidencia a complexidade das barreiras a serem superadas, que vão desde o acesso a serviços de saúde até a qualidade do atendimento oferecido.

A persistência da mortalidade materna no Brasil

A persistência de altos índices de mortalidade materna no Brasil é um reflexo de múltiplas deficiências no sistema de saúde. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), cerca de nove em cada dez dessas mortes são evitáveis. Isso significa que, com intervenções adequadas, acesso a um pré-natal de qualidade, assistência ao parto segura e acompanhamento pós-parto eficaz, a maioria dessas tragédias poderia ser prevenida. Os dados compilados pelo Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM-Datasus) e consultados no Observatório da Saúde Pública servem como um alerta constante para a necessidade de ações coordenadas e efetivas.

O Dia Nacional de Redução da Mortalidade Materna, celebrado em 28 de maio, serve como um momento crucial para reforçar a importância da saúde integral da mulher e dos direitos da gestante e puérpera. A data busca sensibilizar a sociedade e os gestores públicos sobre a urgência de políticas que garantam a segurança e o bem-estar das mulheres em um dos períodos mais vulneráveis de suas vidas.

A importância vital do pré-natal de qualidade

Um dos pilares fundamentais na prevenção da mortalidade materna é o acesso a um pré-natal de excelência. Maria Isabel Peixoto, chefe da Unidade da Saúde da Mulher da Maternidade Escola Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), enfatiza que um atendimento de qualidade é sinônimo de segurança para a gestante. “A gente sabe que com um pré-natal bem feito, de qualidade, de preferência o mais precoce possível para pegar todas as variáveis, conseguimos, na grande maioria das vezes, entregar uma paciente pronta para um parto monitorizado num local com boa assistência e com um desfecho favorável”, afirma.

A Maternidade Escola UFRJ, por exemplo, é uma instituição de referência, especialmente para casos de alto risco. A capacidade de oferecer um acompanhamento especializado desde o início da gestação permite identificar e gerenciar condições que poderiam levar a complicações graves. A técnica de enfermagem Fernanda Lopes de Almeida, de 41 anos e grávida de 18 semanas, é uma das pacientes beneficiadas por esse cuidado. Com histórico de hipertensão e diabetes gestacional em gravidez anterior, Fernanda recebe acompanhamento constante, incluindo orientações sobre hábitos alimentares e exames regulares. “Sou muito bem atendida, me sinto segura”, relata, destacando a importância da conscientização e adaptação para uma gestação mais tranquila.

Principais causas e a abordagem multidisciplinar

As causas da mortalidade materna são diversas, mas as obstétricas diretas respondem por 66% dos óbitos no Brasil. As quatro principais são as síndromes hipertensivas, hemorragias, infecções puerperais e complicações do aborto. Cada uma dessas condições exige atenção e manejo clínico específicos, que podem ser decisivos para a sobrevivência da mulher. A prevenção e o tratamento eficaz dessas causas dependem diretamente da qualidade e da integralidade do cuidado oferecido.

Para garantir um atendimento adequado e reduzir os riscos, a atuação de uma equipe multidisciplinar é crucial, conforme defende o enfermeiro obstétrico Renné Costa, membro do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen). “A gente precisa acreditar muito na multidisciplinaridade das profissões. Cada uma no seu quadrado, cada uma fazendo o seu papel, mas todo mundo centrado nos objetivos que, nesse caso, são a mãe e o bebê”, explica. Médicos, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos e assistentes sociais, trabalhando em conjunto, podem oferecer um suporte completo, abordando não apenas os aspectos clínicos, mas também os sociais e emocionais da gestação e do pós-parto.

O papel da enfermagem e modelos de sucesso

A experiência de Renné Costa no Sistema Único de Saúde (SUS) ilustra o impacto positivo de uma equipe bem preparada e da autonomia profissional. Desde 2009, ele já realizou mais de 5 mil partos, a maioria no Hospital Municipal de Viçosa, em Alagoas. Este município, com pouco mais de 26 mil habitantes, tornou-se referência para outras nove cidades alagoanas na área de assistência ao parto. A chegada de Renné transformou a realidade local: de 80 a 90 partos anuais, o hospital passou a realizar cerca de 600.

Essa expansão e melhoria nos serviços são atribuídas à autonomia concedida à enfermagem, especialmente ao enfermeiro obstétrico, que pode assistir ao parto de baixo risco amparado pela Lei 7.498 de 1986, que regulamenta o exercício profissional da enfermagem. Renné Costa defende que modelos como o de Viçosa deveriam ser replicados em todo o Brasil, mostrando que investimentos na formação e na valorização dos profissionais de enfermagem são estratégicos para a redução da mortalidade materna e para a garantia de um parto seguro e humanizado.

Conscientização e o caminho para a redução

A luta contra a mortalidade materna é uma questão de saúde pública, direitos humanos e justiça social. A cada óbito evitado, uma família é preservada, e a sociedade como um todo avança. A conscientização sobre os fatores de risco, a importância do pré-natal precoce e de qualidade, e a necessidade de equipes multidisciplinares são passos essenciais. O Brasil, com seus desafios continentais e desigualdades regionais, precisa intensificar os esforços para que a meta de 30 mortes a cada 100 mil nascidos vivos até 2030 não seja apenas um número, mas uma realidade que garanta a vida e a dignidade de suas mulheres.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

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