O cinema de horror frequentemente busca suas raízes em mistérios ancestrais e culturas distantes, um expediente que, embora crie atmosferas envolventes, muitas vezes resvala em representações problemáticas. Filmes como “O Exorcista” (1973), “Uma Noite Alucinante – A Morte do Demônio” (1981) e “Hellraiser – Renascido do Inferno” (1987) estabeleceram um padrão: o perigo sobrenatural emerge de territórios, pessoas e objetos associados ao Oriente Médio ou a culturas não ocidentais. Essa tendência, que sugere um “Mal vindo de fora”, é o pano de fundo para “Maldição da Múmia”, a mais recente aposta do diretor Lee Cronin, conhecido por “A Morte do Demônio: A Ascensão”.
Inspirado nos clássicos da Universal dos anos 1930 e 40, o novo filme de terror de Cronin tenta reinterpretar a figura da múmia, mas se debate com a complexidade de seus próprios conceitos. A narrativa começa no Cairo, Egito, onde a família estadunidense de Charlie (Jack Reynor), um jornalista, e Larissa (Laia Costa), uma enfermeira, vive há cinco meses. A vida pacata dos filhos Katie (Emily Mitchell e Natalie Grace) e Sebastián (Shylo Molina) é abruptamente interrompida quando Katie é sequestrada por uma mulher egípcia misteriosa, após um inseto sair de uma maçã e entrar em sua boca, culminando em seu desmaio e rapto em meio a uma tempestade de areia.
O retorno de Katie e a escalada do horror
Oito anos depois, a família, agora residente no Novo México, Estados Unidos, e com uma nova filha, Maud (Billie Roy), recebe uma notícia chocante: Katie foi encontrada viva dentro de um sarcófago, após um acidente de avião no interior do Egito. O reencontro, no entanto, está longe de ser um alívio. Katie retorna ferida, catatônica e com marcas pelo corpo, exibindo um comportamento cada vez mais violento e agressivo. A partir daí, a trama de “Maldição da Múmia” mergulha em uma série de eventos estranhos e perturbadores, forçando a família a confrontar uma ameaça que transcende o físico.
A narrativa se desdobra com Charlie iniciando uma investigação particular para decifrar os escritos em faixas que surgem do corpo da filha, enquanto a investigadora egípcia Zaki (May Calamawy), que já havia se deparado com o caso anos antes, busca suas próprias respostas. O roteiro, também assinado por Lee Cronin, demonstra inteligência ao cruzar essas buscas. Um dos pontos altos é a descoberta de Charlie de que Katie está se comunicando em Código Morse através das batidas dos dentes, um artifício que evoca o suspense de “O Bebê de Rosemary” (1968) e mantém o espectador na ponta da cadeira, antecipando a revelação da mensagem.
Acertos técnicos e dilemas de representação
Do ponto de vista técnico, “Maldição da Múmia” exibe escolhas visuais notáveis. Lee Cronin mantém seu apreço pelas lentes split diopter, criando uma ilusória profundidade de campo que une personagens em diferentes planos, como na cena inicial com a bruxa e sua família no carro, ou quando Charlie e Katie são enquadrados juntos no hospital. Os movimentos de câmera são inventivos, transformando cenas protocolares em momentos visualmente impactantes. A introdução de Charlie, por exemplo, começa com um detalhe do dedo, evolui para um giro de quase 360° e se afasta para um plano aberto. Já no Novo México, a câmera explora o quarto vazio de Katie, sublinhando sua ausência de forma poética e dolorosa.
Contudo, nem todos os elementos do filme alcançam o mesmo nível de excelência. Apesar dos acertos técnicos e de algumas soluções narrativas engenhosas, a obra de Cronin se estende por mais de duas horas, tornando-se prolixa e, em certos momentos, excessivamente focada em chocar a qualquer custo. Há ecos de outras franquias de horror, como “Evil Dead” e “Faça Ela Voltar”, e até mesmo referências a “O Exorcista” que, embora funcionem ao dar ao demônio um caráter profano, não impedem que o conjunto pareça “velho e gasto”.
O orientalismo no horror e a busca por originalidade
Um dos pontos mais sensíveis da crítica ao filme reside na perpetuação do tropo do “mal vindo do Oriente”. Embora a presença de uma investigadora egípcia, Zaki, seja um avanço ao dar protagonismo a uma mulher árabe que soluciona o mistério, a decisão de mostrá-la sem o hijab após a passagem de tempo levanta questionamentos sobre uma possível “ocidentalização” da personagem. Essa escolha pode ser interpretada como uma tentativa de torná-la mais palatável ao público ocidental, diluindo sua autenticidade cultural em prol de uma aceitação mais ampla, o que é um debate recorrente no cinema que aborda culturas não ocidentais. Para aprofundar a discussão sobre a representação do Oriente no cinema, clique aqui.
“Maldição da Múmia” também sofre com um elenco que, em grande parte, parece desinteressado. Laia Costa e Verónica Falcón transitam entre a apatia e o caricato, falhando em transmitir a intensidade exigida pelos acontecimentos. Jack Reynor, embora inexpressivo na maior parte do tempo, consegue capturar o choque de seu personagem em uma cena crucial de ritual. No fim das contas, o filme se revela irregular, ressuscitando conceitos e imagens desgastadas na tentativa de lhes dar uma nova roupagem. A ameaça, na forma de uma bruxa egípcia que infunde um demônio antigo em uma criança estadunidense, culmina em cenas escatológicas e absurdas, com sangue, ferimentos e mutilações.
Apesar de boas ideias, como a subversão do visual clássico da múmia, o filme parece perdido, apostando na quantidade de sustos e choques para impressionar um público que, cada vez mais, se mostra dessensibilizado. O horror, nesta “Maldição da Múmia”, soa desgastado, e a experiência final é tão empoeirada quanto um sarcófago antigo, sem a coragem de inovar verdadeiramente ou de explorar o mal que pode vir de dentro, como em produções mais ousadas.
Fonte: cinematorio.com.br