A cantora e compositora Fernanda Abreu subiu ao palco do Vivo Rio na noite de 11 de abril, em uma apresentação que marcou a estreia nacional do show “Da lata 30 anos”. O evento, parte da programação do Queremos! Festival de 2026, celebrou três décadas do icônico álbum “Da lata”, lançado originalmente em 1995. A performance provou que o “veneno da lata” – uma gíria dos anos 90 para algo de alta qualidade e impacto – ainda surte um efeito poderoso e contagiante no público, reafirmando o legado da artista carioca.
O disco de 1995 foi um marco na carreira de Fernanda, consolidando seu sotaque musical único na cena brasileira, ao fundir o suingue do samba-funk com elementos de R&B e rock, tudo moldado para as pistas de dança. A escolha do Rio de Janeiro, cidade natal da artista (nascida em setembro de 1961), para a estreia do show não foi por acaso. A metrópole, com sua complexidade social e efervescência musical, é o berço do som que Fernanda Abreu magistralmente amalgamou em sua obra.
A Relevância de ‘Da Lata’ na Música Brasileira
Lançado há 31 anos, o álbum “Da lata” não apenas turbinou o pop brasileiro com seu balanço funk, mas também definiu a identidade sonora de Fernanda Abreu. O projeto multimídia que antecedeu o show, em 2025, já havia revisitado as três décadas do disco com um documentário, um livro, uma edição em LP e um remix inédito da faixa “Garota sangue bom” (Fernanda Abreu e Fausto Fawcett, 1995). Essa iniciativa reforçou a importância duradoura do álbum, que se mantém imune à ação corrosiva do tempo.
O trabalho de Fernanda Abreu é um testemunho da capacidade do Brasil de produzir um pop de pista com identidade própria, incorporando ecos da então subestimada disco music. Sua fusão de ritmos, que vai do samba ao funk, passando pelo R&B e rock, criou uma sonoridade que é ao mesmo tempo universal e profundamente enraizada na cultura carioca. A música “Brasil é o país do suingue”, composta por Fernanda em parceria com Fausto Fawcett, Carlos Laufer e Hermano Vianna, e revivida no show, é um hino que encapsula essa essência.
A Energia Contagiante do Show no Vivo Rio
No palco do Vivo Rio, Fernanda Abreu entregou um show “envenenado”, reprocessando a estética visual da época do álbum “Da lata” com figurinos e cenografia que incluíam projeções de vídeos. A banda afiada, composta por músicos como o guitarrista Billy Brandão, o percussionista Jovi Joviniano e o baterista Tuto Ferraz, além da presença marcante do vocalista e dançarino Che Leal, garantiu a qualidade sonora e visual da performance.
Apesar de alguns problemas técnicos, como microfonia e dificuldades da cantora em ouvir certos instrumentos, o brilho do espetáculo não foi ofuscado. A interação com o público foi um dos pontos altos, especialmente quando a plateia fez coro no refrão de “Garota sangue bom”, demonstrando a reverência à artista. As projeções com imagens da época da gravação e lançamento do álbum de 1995 adicionaram uma camada nostálgica e contextual à experiência, transportando os presentes para a efervescência daquela década.
Viagem Musical pelo ‘Universo da Lata’
Com uma aparência e energia joviais que desmentem seus 64 anos, Fernanda Abreu revitalizou o suingue balanço funk, mas também expandiu o repertório para o que ela conceitua como o “universo da lata”. O show incluiu faixas de seu primeiro álbum solo, “Sla radical dance disco club” (1990), como “A noite” (Fernanda Abreu, Carlos Laufer e Luiz Stein, 1990) e a balada “Você pra mim” (Fernanda Abreu, 1990), esta última acompanhada por projeções de imagens que, embora desconexas, remetiam ao universo de “Da lata”.
Um momento de beats desacelerados, com uma cadência mais próxima do R&B, foi caracterizado pela cantora como “baile charm”. Nesse segmento, canções mais lentas como “Dois” (Fernanda Abreu, Pedro Luís e Will Mowat, 1995) e “Um dia não outro sim” (Fernanda Abreu e Marcelo Lobato, 1995) foram lembradas, mostrando a versatilidade da artista. Para esquentar novamente a pista, Fernanda trouxe o rap-samba-funk “Rio 40 graus” (Fernanda Abreu, Carlos Laufer e Fausto Fawcett, 1992), um hino carioca lançado em seu segundo álbum solo, “Sla 2 – Be sample” (1992), e o rap “Kátia Flávia, Godiva do Irajá” (Carlos Laufer e Fausto Fawcett, 1987), do qual a cantora se apropriou em 1997, já consolidada como uma entidade urbana carioca.
O Legado de Fernanda Abreu e a Alma Carioca
O show culminou em um clima de folia, com dois pot-pourris que prepararam o gran finale. Um deles explorou o universo black Rio dos anos 1970, chegando a celebrar o bloco afro baiano Ilê Aiyê, enquanto o outro mergulhou nos funks cariocas, surgidos em 2006 nos primeiros registros de shows da artista. O ponto alto foi a releitura do samba-enredo do Carnaval carioca de 1982, “É hoje” (Didi e Mestrinho), em ritmo de funk, uma versão que Fernanda Abreu fez em 1996 para um comercial e incorporou ao álbum “Da lata”.
O final explosivo da apresentação reforçou a ideia de que o batuque samba-funk de Fernanda Abreu ainda é “da lata”, um elogio que remete à qualidade e à autenticidade. A artista, que se mantém como uma “garota carioca suingue sangue bom”, continua a influenciar gerações e a celebrar a riqueza da cultura musical brasileira, provando que sua arte transcende o tempo e as tendências. Para mais informações sobre a cena musical brasileira, visite o portal G1.
Fonte: g1.globo.com