O Dia Mundial sem Tabaco, celebrado em 31 de maio, serve como um lembrete crucial dos esforços globais para combater o tabagismo. No entanto, enquanto décadas de políticas públicas conseguiram reduzir significativamente o número de fumantes de cigarros tradicionais, uma nova e insidiosa ameaça emerge: os cigarros eletrônicos, popularmente conhecidos como vapes. Estes dispositivos, cada vez mais sofisticados e camuflados, representam um desafio complexo e crescente para a saúde pública, especialmente no Brasil, onde seu uso entre jovens tem disparado.
A Fundação do Câncer, por meio de seu diretor executivo, o cirurgião oncológico Luiz Augusto Maltoni, tem alertado para o cenário preocupante. As novas tecnologias não apenas disfarçam os vapes, mas também os tornam mais atraentes, ampliando o consumo entre a juventude e, consequentemente, a perspectiva de um aumento nos casos de câncer no país. Este alerta ecoa o tema da campanha da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o Dia Mundial sem Tabaco: “Desmascarando o apelo, combatendo a dependência de nicotina e tabaco”, que busca expor as táticas da indústria para viciar novas gerações.
A Estratégia da Camuflagem e o Apelo aos Jovens
A principal tática que tem preocupado especialistas é a capacidade dos vapes de se integrarem ao cotidiano de forma quase imperceptível. Longe da imagem tradicional de um cigarro, esses dispositivos ganharam novas formas e funções que os tornam menos óbvios e, à primeira vista, menos perigosos. Muitos não exalam cheiro, outros utilizam aromatizantes que mascaram o odor da nicotina, e alguns produzem apenas um vapor sutil, que passa despercebido.
Entre os formatos mais alarmantes estão os vaporizer hoodies, moletons com vaporizadores embutidos no tecido, onde o bocal fica escondido na ponta do cordão do capuz. Essa inovação permite que o usuário inale nicotina de forma totalmente discreta, seja no metrô, na escola ou em outros ambientes públicos, sem levantar suspeitas. Maltoni critica veementemente essa “maneira totalmente articulada, e muito mal articulada do ponto de vista da ética”, que visa explicitamente tornar os jovens viciados.
Essa estratégia de camuflagem compromete décadas de avanços nas políticas de controle do tabaco no Brasil, que se tornou uma referência mundial na redução da prevalência de fumantes. O que se observa agora é um risco real de retrocesso, impulsionado pela tecnologia e pela integração desses dispositivos ao dia a dia dos adolescentes, minando a percepção de risco e facilitando o início precoce da dependência.
Proibição no Brasil e o Mercado Ilegal Desenfreado
Apesar da clareza da legislação, a realidade no Brasil é desafiadora. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mantém a proibição da comercialização, importação e propaganda de cigarros eletrônicos desde 2009. Contudo, essa proibição não tem sido suficiente para conter o avanço do consumo. Os vapes são facilmente adquiridos em redes sociais, sites e no comércio informal, criando um mercado paralelo robusto e de difícil fiscalização.
Os números da Receita Federal ilustram a dimensão do problema: entre janeiro e fevereiro de 2026, foram apreendidas impressionantes 238.801 unidades de cigarros eletrônicos no país. Isso equivale a uma média de mais de 4 mil dispositivos por dia, evidenciando a escala do contrabando e a necessidade urgente de medidas mais eficazes para combater essa prática ilegal que alimenta o vício.
A Fusão entre Dependência Química e Digital
Os novos vapes não são apenas discretos; eles são interativos. Muitos incorporam tecnologia de ponta, com telas sensíveis ao toque, jogos, música e até sistemas de troca de mensagens, alinhando-se perfeitamente aos hábitos digitais dos jovens. Alguns dispositivos vão além, com sistemas que “reagem” se o usuário para de usar, emitindo alertas e criando um ciclo de estímulo contínuo que reforça a dependência.
Luiz Augusto Maltoni descreve esse fenômeno como a “fusão entre dependência química e dependência digital”. O vape deixa de ser apenas um dispositivo para se tornar um acessório interativo, integrado à rotina e ao universo digital dos adolescentes, tornando a desvinculação ainda mais complexa. Os dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024 são alarmantes: a experimentação de cigarros eletrônicos entre estudantes de 13 a 17 anos quase dobrou, passando de 16,8% em 2019 para 29,6% em 2024.
Impactos Devastadores na Saúde dos Adolescentes
A consultora da Fundação do Câncer na área de tabagismo, Milena Maciel de Carvalho, enfatiza que o uso de cigarros eletrônicos na adolescência transcende a escolha individual, configurando um grave problema de saúde pública. A exposição à nicotina durante a adolescência pode comprometer o desenvolvimento cerebral, afetando áreas cruciais como atenção, aprendizagem, humor e controle de impulsos. Além disso, aumenta significativamente a vulnerabilidade à dependência de nicotina ao longo da vida adulta.
Os vapes também expõem os usuários a uma série de substâncias tóxicas, incluindo partículas ultrafinas, compostos orgânicos voláteis e metais pesados, que podem causar danos respiratórios e cardiovasculares. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) também alerta para os riscos associados a esses dispositivos, reforçando a necessidade de conscientização e prevenção.
Medidas Urgentes e o Exemplo Internacional
Diante desse cenário, a Fundação do Câncer lançou a campanha “Spoiler: ele não te ama”, com um filme que simula uma reportagem sobre relacionamentos abusivos, buscando alertar os jovens sobre a falsa imagem que a indústria projeta dos vapes. A mensagem é clara: quem nunca experimentou, que não experimente; e quem já usa, que pare.
Luiz Augusto Maltoni defende a adoção de medidas mais rigorosas no Brasil, citando o exemplo da Inglaterra. O país, historicamente mais liberal em relação ao tabaco, implementou uma proibição da venda de qualquer produto de tabaco para quem nasceu depois de 1º de janeiro de 2009. Além disso, o Reino Unido ampliou as restrições à publicidade, promoção e apresentação dos vapes, visando reduzir seu apelo entre crianças e adolescentes. “Eu acho que a gente tem que caminhar nesse sentido”, conclui Maltoni, ressaltando a urgência de proteger as futuras gerações dos riscos dos cigarros eletrônicos e da dependência de nicotina.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br