Paulo Miklos, figura multifacetada da música e arte brasileira, lança “Coisas da Vida”, seu mais recente trabalho como intérprete. O álbum, que chegou ao público em 22 de maio, transcende a mera coletânea de covers, apresentando-se como uma profunda reflexão existencial embalada por majestosos arranjos orquestrais. Longe de ser um simples karaokê, como o single inicial “Evidências” poderia sugerir, o disco revela a faceta de Miklos como um crooner moderno, capaz de dar nova vida a clássicos e canções menos óbvias da música brasileira.
A expectativa em torno do projeto começou a ser construída em 8 de maio, com o lançamento da regravação de “Evidências” (João Augusto e Paulo Sérgio Valle, 1989), acompanhada de um clipe ambientado em um karaokê. Embora a escolha tenha levantado questionamentos sobre a necessidade de mais uma versão do hino sertanejo popularizado por Chitãozinho & Xororó, a faixa, que de fato pouco acrescenta à essência da canção original, serve como um contraponto para a riqueza que se desdobra nas demais onze faixas do álbum.
A Essência de um Crooner e a Ambição Orquestral
O conceito de “crooner” no Brasil, muitas vezes associado a cantores de voz suave e interpretação dramática, ganha uma nova roupagem na voz de Paulo Miklos. Ele não apenas canta, mas encarna as narrativas das canções, emprestando sua experiência de vida e artística a cada verso. O grande diferencial de “Coisas da Vida” reside na sua moldura orquestral, concebida com maestria por Otávio de Moraes. Em parceria com Rafael Ramos na produção musical, Moraes criou arranjos suntuosos, repletos de cordas e sopros, que elevam o repertório a um patamar de grandiosidade e sofisticação, editado pela gravadora Deck.
Essa abordagem orquestral não é um mero adorno; ela é fundamental para a proposta existencialista do álbum. As camadas instrumentais aprofundam as emoções das letras, transformando cada faixa em uma experiência sonora imersiva. A escolha de Miklos por um disco de intérprete, após uma carreira marcada pela autoria e pela banda Titãs, demonstra uma maturidade artística e um desejo de explorar novas possibilidades vocais e interpretativas, consolidando sua versatilidade no cenário da MPB.
Entre o Ícone Sertanejo e a Memória Afetiva
Além de “Evidências”, outra faixa que pode surpreender o ouvinte é “Xibom bombom” (Rogério Gaspar e Wesley Rangel, 1999), sucesso do grupo baiano As Meninas na era de ouro da axé music. Embora a canção, com sua crítica social (“O de cima sobe e o de baixo desce”) que ecoava versos de Chico Science, possa parecer deslocada, sua inclusão é profundamente pessoal para Miklos. A música ocupa um lugar de honra em sua playlist afetiva, tendo sido a primeira canção que ele cantou ao acordar de um período de internação hospitalar devido a uma gastroenterite. Essa revelação adiciona uma camada de humanidade e vulnerabilidade ao projeto, explicando escolhas que, à primeira vista, poderiam parecer puramente mercadológicas.
A diversidade do repertório, que transita entre gêneros e épocas, é um dos pontos fortes do álbum. Miklos não se prende a um estilo, mas busca a essência de cada composição, adaptando-a à sua voz e à visão orquestral do projeto. Essa curadoria, que mistura o popular e o autoral, o conhecido e o redescoberto, é o que confere a “Coisas da Vida” sua identidade única e relevante para o público brasileiro.
Reflexões Existenciais na Música Brasileira
O fio condutor de “Coisas da Vida” é, sem dúvida, seu viés existencialista, que permeia a maioria das escolhas musicais. A faixa-título, uma balada lançada por Rita Lee (1947 – 2023) há 50 anos no álbum “Entradas e bandeiras” (1976), já aponta para essa direção. O álbum abre com “Mestre Jonas” (Guttemberg Guarabyra, Luiz Carlos Sá e Zé Rodrix, 1973), um standard do rock rural que critica o conformismo e a falta de ousadia na vida. Miklos revive a canção com um arranjo polifônico e uma pulsação frenética que remete à gravação original do trio Sá, Rodrix & Guarabyra, mas com uma interpretação que evita o mero cover.
Essa crítica ao conformismo se alinha com o inconformismo de “Quero voltar pra Bahia” (Paulo Diniz e Odibar Moreira da Silva, 1970), onde o eu-lírico expressa insatisfação com o Brasil e a solidão, buscando refúgio na Bahia como um porto seguro. A canção permite a Miklos explorar um suingue bissexto em seu canto, mostrando sua capacidade de transitar por diferentes ritmos. O humanismo de “O sal da terra” (Beto Guedes e Ronaldo Bastos, 1981), que prega amor e união por um mundo mais pacífico e sustentável, também encontra ressonância no álbum, oferecendo um contraponto de esperança às reflexões mais melancólicas.
A Metrópole, a Tradição e a Resiliência Sonora
A jornada musical de Miklos em “Coisas da Vida” também revisita a tradição e a modernidade. “Saudosa maloca” (Adoniran Barbosa, 1955) é reconstruída em um ambiente de câmara, uma escolha que faz sentido para quem já viu Miklos encarnar o próprio Adoniran (1910 – 1982) no cinema em filmes de 2015 e 2024. A leveza e o lúdico surgem com a concretista “Cachorro babucho” (Walter Franco, 1975), adicionando um toque de experimentação ao conjunto.
A frieza e a solidão da metrópole paulistana são evocadas em “Não existe amor em SP” (2011), canção de alma soul que projetou o rapper Criolo para além do hip hop. Otávio de Moraes, com sua sensibilidade, enquadra a música fora da moldura convencional dos arranjos de cordas, realçando a sensação de desajuste emocional presente nos versos. A inadequação também é tema em “Ninguém vive por mim”, um Sérgio Sampaio (1947 – 1994) menos óbvio, lançado em single avulso de 1977, que Miklos traz à tona com sua interpretação singular.
O álbum culmina com a resiliência de “O tempo não para” (Arnaldo Brandão e Cazuza, 1988), um rock que, apesar de desiludido, carrega um facho de esperança. Miklos contemporiza em um verso de Sampaio: “O pior dos temporais aduba os jardins”, uma mensagem que se alinha perfeitamente com o encerramento do disco. A canção de Cazuza, com sua pulsação roqueira aliada às cordas orquestrais, faz um elo com a própria história de Paulo Miklos, um artista que, neste trabalho, demonstra ir muito além do esperado, entregando um disco de intérprete enérgico e profundamente humano. Para mais informações sobre o lançamento, você pode consultar portais de música especializados como o G1 Música.
Fonte: g1.globo.com