Oswaldo Alves Pereira, mais conhecido como Noca da Portela, um dos maiores nomes do samba brasileiro, faleceu neste domingo, 17 de maio de 2026, no Rio de Janeiro (RJ), aos 93 anos. A causa da morte foi pneumonia e outras complicações decorrentes de uma internação hospitalar para tratar uma infecção urinária. A partida do lendário compositor e cantor deixa um vazio imenso no universo do samba, mas seu legado de mais de 500 sambas e sua postura engajada na defesa da democracia e da justiça social permanecem vivos na memória e na cultura do país.
Nascido em Leopoldina (MG) em 12 de dezembro de 1932, Noca mudou-se para o Rio de Janeiro (RJ) ainda criança, aos cinco anos, e foi na capital fluminense que fincou suas raízes e construiu uma trajetória artística e militante inigualável. Sua obra transcendeu o entretenimento, transformando o samba em um poderoso instrumento de reflexão e transformação social, especialmente durante períodos cruciais da história brasileira.
A voz da redemocratização e o samba engajado
Um dos momentos mais marcantes da carreira de Noca da Portela foi a composição de “Virada”, em 1981, em parceria com Gilson Pereira, o Gilper. A canção surgiu em um período em que a ditadura militar brasileira dava sinais de esgotamento e os ventos da abertura política começavam a soprar com força. O samba, com sua mensagem de esperança e luta pela redemocratização, ganhou o Brasil na voz potente e igualmente politizada de Beth Carvalho (1946 – 2019), tornando-se um hino daquele tempo.
A capacidade de Noca de traduzir o sentimento popular em melodia e poesia fez dele um bamba militante, que utilizava sua arte para defender ideais de liberdade e igualdade. Sua obra é um testemunho da força do samba como expressão cultural e política, capaz de mobilizar e inspirar gerações. A relevância de sambas como “Virada” ecoa até hoje, lembrando a importância da vigilância democrática e do engajamento cívico.
O amor incondicional pela Portela
O sobrenome artístico de Oswaldo Alves Pereira não era por acaso. Noca da Portela carregava em sua identidade a paixão e a dedicação pela Portela, a tradicional escola de samba do Carnaval carioca. Foi levado à agremiação azul e branca por Paulinho da Viola em 1966, e desde então, sua história se entrelaçou indissociavelmente com a da Majestade do Samba.
Na Portela, Noca não foi apenas um membro, mas um pilar fundamental. Ele venceu a disputa de samba-enredo da escola por sete vezes, levando a agremiação para a avenida com composições memoráveis em carnavais como os de 1985 (“Recordar é viver”), 1995 (“Gosto que me enrosco”) e 1998 (“Os olhos da noite”). Seu amor pela escola foi imortalizado no samba “Portela querida” (1967), parceria com Colombo e Picolino, com quem formou o célebre trio ABC da Portela. Essa canção se tornou um dos hinos informais da agremiação, cantado com orgulho por portelenses de todas as gerações.
Parcerias e um legado musical vasto
A discografia de Noca da Portela é um verdadeiro tesouro do samba. Além de suas composições para a Portela e para blocos cariocas como o Simpatia é quase amor, e sua ligação com a escola de samba Paraíso do Tuiuti, Noca teve suas obras gravadas por alguns dos maiores nomes da música brasileira. Alcione, por exemplo, registrou em 1982 a canção “Vendaval da vida”, parceria de Noca com Delcio Carvalho (1939 – 2013). Paulinho da Viola, seu padrinho na Portela, interpretou “Peregrino” (1996), samba de Noca com Toninho Nascimento.
Outros sucessos incluem “É preciso muito amor” (1979), em coautoria com Tião de Miracema, lançada por Chico da Silva e regravada por bambas como Zeca Pagodinho e Dudu Nobre, e “Caciqueando” (1983), mais uma vez associada à voz de Beth Carvalho. Noca também estabeleceu parcerias notáveis com Martinho da Vila, resultando em sambas como “Nem a lua” (1978) e o contemporâneo “Vidas negras importam” (2021), que demonstra sua relevância e engajamento até os últimos anos de vida. Para mais informações sobre a vida e obra de Noca da Portela, você pode consultar fontes como a enciclopédia da música brasileira.
Como cantor, Noca da Portela também deixou uma discografia solo significativa, com álbuns como “Mãos dadas” (1980), “Samba verdadeiro” (1998) e o derradeiro “Homenagens” (2016). Esses trabalhos são testamentos de uma obra engajada e de um artista que, até o fim, usou o samba como plataforma para defender seus ideais de democracia e justiça social, deixando uma marca indelével na cultura brasileira.
Fonte: g1.globo.com