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A plenitude de Zezé Motta: musical celebra a trajetória da artista que driblou o racismo com arte

que, além de aludir à música composta em 1978 por Rita Lee (1947 – 2023) e Rober
Reprodução G1

O espetáculo “Prazer, Zezé!”, que encerrou sua aclamada temporada paulistana em 21 de abril no Teatro Raul Cortez, no Sesc 14 Bis, em São Paulo (SP), transcendeu a mera biografia para se firmar como uma celebração vibrante da vida e da carreira de Zezé Motta. Mais do que apresentar os sucessos conhecidos da atriz e cantora, o musical, idealizado e escrito por Toni Brandão, mergulhou na profundidade de sua jornada, destacando a resiliência e o talento que a permitiram superar o racismo estrutural da sociedade brasileira através da força da arte.

A produção, que recebeu a cotação de quatro estrelas, conforme crítica especializada, propôs um encontro genuíno com Maria José Motta de Oliveira, nascida em Campos dos Goytacazes (RJ) em 27 de junho de 1944. O título “Prazer, Zezé!” é uma referência engenhosa à canção de Rita Lee e Roberto de Carvalho, de 1978, mas também um convite para o público conhecer a artista em sua totalidade, para além dos papéis icônicos e das canções que marcaram gerações.

Zezé Motta: um legado de arte e resistência

Embora Zezé Motta seja um nome familiar para muitos – seja por sua atuação em novelas como “Corpo a corpo” (1984) e “A nobreza do amor”, ou por sua performance suntuosa como protagonista do filme “Xica da Silva” (1976), além de sucessos musicais como o samba “Senhora liberdade” (Wilson Moreira e Nei Lopes, 1979) –, a dimensão de sua luta pessoal e profissional nem sempre é plenamente reconhecida. O musical “Prazer, Zezé!” preencheu essa lacuna, revelando a persistência vitoriosa da artista para se impor em um cenário artístico que, desde a segunda metade da década de 1960, era permeado por desafios raciais.

A dramaturgia de Toni Brandão se destacou por fugir de uma abordagem meramente cronológica ou enciclopédica, optando por extrair a essência da história de Zezé Motta. O roteiro foi cuidadosamente construído para conectar o público com pautas identitárias cruciais, como o empoderamento feminino, o combate ao etarismo e a luta incessante para erradicar o racismo. Essa abordagem não apenas contextualizou a trajetória da artista, mas também a ressignificou como um símbolo de resistência e inspiração.

Negritude e a força da interpretação no palco

A negritude, que sempre pautou o caminho de Zezé Motta nas artes, foi um elemento central e exuberante no espetáculo. O termo, inclusive, batizou o segundo álbum solo da artista, lançado em 1979 e impulsionado pelo sucesso de “Senhora liberdade”. No palco, essa essência foi traduzida através de um repertório musical cuidadosamente selecionado, que incluiu, além do samba de Wilson Moreira e Nei Lopes, composições marcantes como “Magrelinha” (Luiz Melodia, 1973) e “Soluços” (Jards Macalé, 1969). A voz grave, quente e afinada de Zezé Motta, reproduzida com maestria, permitiu que essas músicas ganhassem novas camadas de significado.

A personificação de Zezé Motta em suas diferentes fases da vida coube à atriz Larissa Noel, cuja presença radiante em cena foi amplamente elogiada. Sob a direção de Débora Dubois, Larissa Noel evitou a mimetização, buscando capturar a energia e a alma de Zezé em um trabalho apurado e sensível. O elenco harmonioso, que a acompanhou, contribuiu para a riqueza do espetáculo, com atuações que enriqueceram a narrativa e emocionaram a plateia.

Talentos em cena e o impacto político da arte

O musical “Prazer, Zezé!” brilhou também pela performance de um elenco de apoio talentoso. Maria Antônia Ibraim emocionou na pele de Maria Elazir Motta, mãe de Zezé. Hipólyto entregou uma aparição convincente como Luiz Melodia (1951 – 2017) em um dueto memorável com Larissa Noel. Luciana Carnieli impressionou ao reproduzir os trejeitos e a voz da grande amiga de Zezé, a atriz Marília Pêra (1943 – 2015). Completando o quarteto, Arthur Berges trouxe uma boa chave cômica ao interpretar o figurinista e maquiador Carlinhos Prieto (1947 – 1995).

A força do musical residiu, em grande parte, em seu caráter político e social. Ao retratar a trajetória vitoriosa de Zezé Motta, enfatizando as experiências de racismo que a artista enfrentou e superou com altivez, o espetáculo afirmou a potência e a resiliência do povo negro do Brasil. Um dos momentos mais simbólicos e emocionantes foi quando Larissa Noel quebrou a quarta parede, convidando espectadores negros da plateia a se apresentarem, dizendo seus nomes e profissões. Esse gesto poderoso não apenas conectou o elenco ao público, mas também reafirmou a presença e a importância de cada indivíduo na construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

Um apelo à continuidade: a potência ancestral de Zezé Motta

O musical “Prazer, Zezé!” se engrandeceu ao reafirmar a potência ancestral do povo negro, utilizando a história de Maria José Motta de Oliveira como um farol. A produção de Bianca de Felippes, da Gávea Filmes, entregou um espetáculo de grande beleza e relevância cultural. Dada a importância da artista e a profundidade da mensagem transmitida, seria um desdobramento justo e necessário que o musical, após o sucesso em São Paulo, pudesse seguir em cartaz por outras cidades do Brasil, levando essa inspiradora narrativa a um público ainda maior.

A história de Zezé Motta, contada com sensibilidade e vigor no palco, serve como um lembrete poderoso de que a arte é uma ferramenta essencial para a transformação social, capaz de dar voz, celebrar identidades e inspirar a luta por um futuro mais equitativo. O legado de Zezé Motta, agora eternizado também nos palcos, continua a ecoar, mostrando que o talento e a força de vontade podem, de fato, driblar as adversidades e construir um caminho de plenitude. Para mais informações sobre a programação cultural do Sesc, visite: Sesc SP.

Fonte: g1.globo.com

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