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Brutal paraíso: Luísa Sonza entrega álbum ambicioso que se perde em excessos

excessos ao longo das 23 faixas do álbum 'Brutal paraíso' Divulgação ♫ CRÍTICA D
Reprodução G1

A cantora Luísa Sonza tem sido um dos nomes mais comentados no cenário pop brasileiro, e o lançamento de seu quinto álbum de estúdio, intitulado “Brutal paraíso”, não foi diferente. Antecedido por uma campanha de marketing que a própria artista descreveu como espetaculosa, o disco chegou às plataformas digitais na noite de terça-feira, 7 de abril, gerando grande expectativa entre fãs e críticos. Sua chegada coincidiu com a aguardada apresentação de Sonza no festival norte-americano Coachella, marcada para sábado, 11 de abril, às 21h10m (horário de Brasília).

No entanto, a recepção inicial de “Brutal paraíso” tem sido marcada por uma certa frieza, com parte da crítica especializada e alguns setores da base de fãs da artista de 27 anos manifestando um entusiasmo contido. Com um total de 23 faixas e uma duração de 67 minutos, o álbum é percebido como extenso, especialmente para uma geração acostumada à velocidade e concisão do consumo de conteúdo na era digital.

A complexidade e os desafios de “Brutal paraíso”

A principal crítica direcionada a “Brutal paraíso” reside nos seus excessos. Essa característica não se limita apenas ao número elevado de músicas, mas se estende à própria concepção do projeto. O marketing que precedeu o lançamento, embora grandioso, parece ter criado uma expectativa que o álbum, em sua totalidade, não consegue sustentar de forma coesa. A ambição artística de Luísa Sonza é evidente, mas a execução resulta em um trabalho difuso, que tenta abraçar múltiplas referências sem consolidar uma identidade clara.

O repertório do álbum é um caldeirão de citações e inspirações. Há ecos da música “Pena verde” (1970), do cantor português Abílio Manoel, na faixa de pegada roqueira “Santa maculada”. A obra do dramaturgo Nelson Rodrigues (1912 – 1980) é homenageada no título da canção “A vida como ela é”. Até mesmo o hit do RPM ressurge na batida eletropop de “Loira gelada”, acompanhada de um clipe provocativo, marca registrada de Luísa Sonza. Essa profusão de referências, embora demonstre um vasto universo criativo, acaba por diluir o foco do álbum.

Entre a bossa nova e o funk: a distopia sonora

O conceito central de “Brutal paraíso”, embora confuso, tenta mergulhar em um mundo de distopia. A vinheta de abertura, “Distrópico”, já dá a pista, brincando com as palavras “distópico” e “trópico” para sinalizar um repertório autoral que navega por paisagens sonoras contrastantes. Em sua essência, o álbum se debate entre a delicadeza da bossa nova – um aceno ao elogiado disco anterior, “Bossa sempre nova” (2026), e ao single “Fruto do tempo” – e a energia crua do funk.

Contudo, a artista não consegue estabelecer uma narrativa clara onde a bossa nova representaria um paraíso perdido e o funk, a brutalidade de um mundo em decadência. A faixa “Amor, que pena!”, a mais bossa nova do álbum, já expõe o paradoxo e o desencanto, embaralhando as cartas desde o início. A transição da bossa nova, perceptível na introdução de “E agora?” – que depois se funde com batidas eletrônicas e a participação do rapper Xamã –, para o funk carregado de erotismo em faixas como “Tropical paradise”, “Safada” (com a cantora porto-riquenha Young Miko) e “Sonhei contigo” (com MC Meno e MC Morena), revela uma busca por diversidade que nem sempre encontra coesão.

Colaborações internacionais e a busca por identidade

As parcerias internacionais em “Brutal paraíso”, como a já mencionada Young Miko em “Safada” e o cantor colombiano Sebastián Yatra em “Tu gata”, além da faixa “No es lo mío”, empurram o álbum para o universo do pop latino contemporâneo. Essa incursão em diferentes mercados e sonoridades, embora possa ampliar o alcance da artista, também contribui para a falta de um foco mais definido, um “pecado” já observado em outros artistas brasileiros que buscam o mercado global, como Anitta em seu primeiro álbum internacional, “Kisses” (2019).

A dificuldade em encontrar uma conexão musical entre os “funks safados” e baladas melodiosas como “Quando”, onde Sonza busca aconchego e proteção, é um dos pontos que mais evidenciam a dispersão do álbum. A única ponte possível entre esses universos, como a própria cantora sentencia em um verso de “Quando”, é a ideia de que “O amor é sagrado, é profano”, sugerindo uma dualidade que permeia toda a obra.

A sensação de que “menos é mais”

Ao se encerrar com a confessional e extensa faixa-título “Brutal paraíso”, que dura oito minutos, o álbum deixa a sensação de que um projeto mais conciso e com menos faixas poderia ter resultado em uma obra mais coesa e impactante. Dividida entre o sonho distante de um paraíso e a desilusão concreta da vida como ela é, Luísa Sonza parece ter ignorado a máxima de que, por vezes, “menos é mais”. A ambição de explorar tantos caminhos simultaneamente, embora louvável, acabou por fragmentar a experiência auditiva, diluindo o potencial de um álbum que prometia ser um marco na sua carreira.

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Fonte: g1.globo.com

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