A cena musical carioca tem sido agraciada com a presença marcante de Cida Moreira, uma das vozes mais singulares da música brasileira. Conhecida por sua interpretação profunda e sua rara aparição nos palcos do Rio de Janeiro (RJ), a cantora paulistana tem quebrado essa rotina no primeiro semestre de 2026, cruzando a ponte aérea com frequência para apresentar seu aclamado show “Me acalmo danando – A música de Angela Ro Ro”. Este espetáculo, que já teve minitemporadas bem-sucedidas no Manouche, chegou ao tradicional Teatro Rival Petrobras em sessões agendadas para 10 e 11 de abril, consolidando a conexão de Cida com o público carioca e com o legado de Angela Ro Ro (1949 – 2025).
A escolha de Cida Moreira em dedicar um show inteiro ao cancioneiro de Angela Ro Ro não é por acaso. Ambas as artistas compartilham uma intensidade e uma profundidade que transcendem a mera interpretação. Ro Ro, uma das maiores compositoras e intérpretes do Brasil, deixou uma obra densa e visceral, que desafia qualquer cantor a mergulhar em suas camadas emocionais. Cida Moreira, com sua experiência e sensibilidade, aceita o desafio e o supera, oferecendo uma leitura que, ao mesmo tempo, respeita a essência da obra original e imprime sua própria marca.
A jornada de Cida Moreira e a essência de Angela Ro Ro
Desde o fim de janeiro, a artista tem se dedicado a levar a música de Angela Ro Ro aos cariocas. Após quatro apresentações no Manouche, o show “Me acalmo danando” encontrou seu lar no Teatro Rival Petrobras, um palco de grande importância histórica para a música popular brasileira. A performance de Cida Moreira é um testemunho de sua maestria, mesmo diante de imprevistos técnicos, como os problemas no som do piano detectados logo na abertura do show de 10 de abril, com o sagaz samba-canção “Demais” (Antonio Carlos Jobim e Aloysio de Oliveira, 1959), uma canção que, segundo críticos, traduz a própria existência de Ro Ro.
A capacidade de Cida Moreira de manter a fluidez e a beleza do espetáculo, apesar das adversidades técnicas, é um reflexo de sua profunda conexão com a música que interpreta. O repertório do show tem evoluído, com a inclusão estratégica de canções que enriquecem a narrativa. “Só nos resta viver” (1980), por exemplo, uma canção que traz um sopro de leveza à obra geralmente densa de Ro Ro, foi incorporada ao arremate do show, após ter sido apresentada no Blue Note São Paulo em 5 de abril. A melodia, considerada uma das mais bonitas do cancioneiro de Angela Ro Ro, adiciona uma dimensão extra à homenagem.
Diálogos musicais: Bethânia, Marina Lima e o legado de Ro Ro
O show de Cida Moreira também evoca a memória de outras grandes intérpretes que se aventuraram no universo de Angela Ro Ro. A troca da música “Mares de Espanha” (1979) por “Came e case” (1981) no roteiro, por exemplo, destaca a versatilidade do cancioneiro de Ro Ro. Enquanto “Came e case”, do álbum “Escândalo” (1981), celebra o prazer de amar, “Mares de Espanha” ganhou nova visibilidade no ano anterior, sendo reavivada por Maria Bethânia em seu show de 60 anos de carreira, com uma interpretação arrebatadora que ainda ecoa na mente de muitos.
A relação de Maria Bethânia com a obra de Angela Ro Ro é notória. Bethânia, que teve a primazia de acender “Fogueira” (1983) no álbum “Ciclo” (1983), demonstra um entendimento profundo do universo de Ro Ro. Mas não é apenas Bethânia que se conecta com a genialidade de Ro Ro. Marina Lima, por exemplo, foi a primeira cantora a gravar uma canção de Ro Ro, “Não há cabeça” (1979), antes mesmo da própria compositora. Essa gravação, presente no álbum “Simples como fogo” (1979) de Marina, contou com o piano da própria Angela Ro Ro e a guitarra atmosférica de Sérgio Dias, tornando-se um tesouro escondido na discografia de Marina Lima.
A maestria de Cida Moreira reside em sua capacidade de entender o sentido e o sentimento por trás das letras de Angela Ro Ro. Canções como “A mim e a mais ninguém” (Angela Ro Ro e Sérgio Bandeyra, 1979) e “Me acalmo danando” (1979) ganham uma nova vida na voz de Cida, revelando uma afinidade que vai além da técnica vocal, é uma questão de alma. Em um mundo de dissonâncias, a arte de Cida Moreira cantando Angela Ro Ro nos lembra da beleza da vida e da importância de celebrar o legado de grandes artistas. Para os amantes da boa música, ouvir Cida Moreira é uma experiência que nutre a alma e reafirma a atemporalidade do cancioneiro de Angela Ro Ro.
Para mais informações sobre a carreira de Cida Moreira e sua discografia, visite o site oficial da artista.
Fonte: g1.globo.com